sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Arábia Saudita: desafio do governo Obama



por Virgílio Caixeta Arraes
Transcorridos mais de seis meses de mandato, observa-se que o governo Obama não implementou, de fato, nenhuma medida transformadora na sua política externa, apesar de ela ter sido um dos pontos mais vulneráveis da gestão antecessora. Dentre eles, situa-se, sem sombra de dúvida, o Oriente Médio. Nele, a Arábia Saudita é o mais importante aliado dos Estados Unidos, após Israel. Isoladamente, não há como desconsiderá-la de temas como petróleo ou terrorismo, por exemplo.

Em tese, a configuração do relacionamento amero-saudita diminui ou intensifica sobremaneira a estabilidade regional. Nas últimas semanas, a Casa Branca tem-se aproximado mais de Riad, porém sem ainda conseguir estabelecer uma relação pessoal mais próxima entre o Presidente Obama e o Rei Abdullah, considerada fundamental pela diplomacia estadunidense para se superar a dificuldade em torno de questões polêmicas como:

O próprio destino da presença anglo-americana em solo iraquiano, em vista da importância econômica – petróleo – e religiosa – as cidades de Karbala e Najaf, por exemplo -, ou a disputa entre israelenses e palestinos, tema caro ao monarca saudita e, por conseguinte, presente de maneira mais acentuada na política externa de seu país desde a sua assunção ao trono, em agosto de 2005. Isto inclui mesmo o provimento de auxílio financeiro oficial à Autoridade Palestina.

Para estes, há a necessidade de seu próprio Estado, a fim de trazer maior estabilidade política à região médio-oriental e solucionar ou ao menos encaminhar o problema dos refugiados e do status de Jerusalém; para aqueles, a aceitação de sua existência pelos demais países muçulmanos, com o fito de regularizar as relações diplomáticas e, por extensão, abrir novas oportunidades de comércio, cooperação técnica, entre outras necessidades.

A proximidade entre aqueles mandatários foi de certa forma desprezada no governo anterior – somente em seu segundo mandato é que Bush se deslocou à Arábia Saudita. Lá, há uma das bases militares mais importantes dos Estados Unidos, encorpada após a primeira Guerra do Golfo, sob a justificativa de guarnecer a segurança de seus aliados contra regimes expansionistas ou aventureiros.

Possivelmente, a Arábia Saudita será o destino de muitos prisioneiros de Guantánamo, quando da desativação real do presídio a acontecer possivelmente no final do ano. A razão se deve ao fato de o país dispor de um centro de recuperação de terroristas.

Outrossim, a aliança amero-saudita justifica-se bastante em decorrência da visão de Washington acerca da posição de Riad no Oriente Médio: ser um contraponto ao Irã em duas frentes. Na primeira, a preocupação refere-se ao andamento do programa nuclear de Teerã. Nesse sentido, o poderio financeiro dos sauditas, ao lado de sua disponibilidade energética, poderia influenciar países a não cooperar com o governo iraniano, como foi o caso recente com a China.

A segunda delas conecta-se com a possibilidade de firmar-se no Iraque pós-ocupação euro-americana um governo xiita, mais próximo naturalmente de Teerã. Espera-se que o país aja da mesma maneira que no Líbano, onde auxilia política e economicamente os sunitas, não tão arredios a um contato permanente com os Estados Unidos, em oposição ao Hezbolá, alinhado ao Irã.

Além do mais, a diplomacia saudita poderia desempenhar um papel importante na mediação de problemas com o Paquistão e também com o Talibã, ambos majoritariamente sunitas. No final de 2008, tentou-se uma conciliação política entre este e o governo de Islamabad. Mesmo infrutífero, o encontro mostrou Riad como um interlocutor valioso para futuros entendimentos.

Assim, na visão da Casa Branca, apesar de possíveis vínculos financeiros entre extremistas religiosos – simpatizantes da Al-Qaida, por exemplo – e membros do governo saudita, a manutenção da parceria é mais importante, o que explica o comportamento do Departamento de Justiça com vistas a opor-se internamente aos processos judiciais de famílias com parentes mortos no atentado terrorista de 2001.

Nestas disputas, argumenta-se que a família real saudita deveria ser responsabilizada do ponto de vista financeiro por ter supostamente patrocinado os perpetradores do ataque, ao menos de maneira indireta.

Apesar das tentativas de fortalecimento dos laços entre os dois países, há um aspecto a ser considerado de modo cauteloso pela Arábia Saudita que é, por seu turno, fundamental para o equilíbrio político do Oriente Médio: a movimentação da diplomacia americana estende-se também ao Irã.

Seria um feito importante para o governo Obama a normalização do relacionamento com Teerã após trinta anos de severos atritos, o que incluiu o patrocínio político de uma guerra – a do Irã-Iraque entre 1980 e 1988. Ademais, isso possibilitaria maior diversificação para as demandas energéticas norte-americanas, com a conseqüente diminuição da dependência de fontes sauditas.

Por outro lado, a resposta da Arábia Saudita teria impacto diferente no curto prazo: vender mais petróleo para a Índia e China. Embora mantivesse o nível financeiro, politicamente os ganhos a serem aferidos seriam sem sombra de dúvida mais modestos.

Virgílio Caixeta Arraes é Professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Meridiano 47

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