segunda-feira, 16 de maio de 2016

Por que as árvores do Cerrado possuem troncos tortuosos?


 Lucas Baptista



ILUSTRAS: Sabrina Eras

É devido a uma combinação de fatores naturais. A flora do Cerrado possui características biológicas que a protegem da morte em caso de queimadas - fenômeno comum na região devido aos raios. Mas o fogo mata alguns brotos, de modo que os galhos estão sempre crescendo numa direção diferente (veja no infográfico abaixo). Vale lembrar que o Cerrado é um bioma do tipo savana (em que as árvores são espaçadas o suficiente para deixar que a luz solar chegue ao solo e permita o crescimento de grama) exclusivo da América do Sul, predominante principalmente no Centro-Oeste do Brasil. A vegetação, típica de climas secos, se compõe de arbustos e pequenas árvores com troncos tortuosos e casca e folhas grossas.

1) CASCA GROSSA

O súber é um tecido formado por células mortas e que envolve troncos e galhos. Ele é interpretado como uma característica de adaptação ao fogo. Agindo como isolante térmico, o súber impede que as altas temperaturas das labaredas atinjam os tecidos vivos mais internos dos caules

2) TERRA FRACA

O solo é naturalmente rico em alumínio e pobre em nutrientes, o que faz com que a vegetação não cresça muito. Por isso, é comum ver árvores baixas no Cerrado, com entre 2 e 6 m (a não ser nas partes conhecidas como Cerradão, em que há mais disponibilidade de água e nutrientes)

3) DEBAIXO DA TERRA

Raízes e outras estruturas subterrâneas, como tubérculos, são muito bem desenvolvidas nas plantas do Cerrado - em parte para buscar água em lençóis a 20 m abaixo do solo. Com isso, a vegetação pode rebrotar com rapidez após intempéries climáticas, como o fogo, por exemplo


VIDA APÓS AS CHAMAS

Brotos de cima queimam, então o jeito é ir para os lados


1. O fogo, resultante de descargas elétricas naturais, é comum na região. Ele queima a gema (ou broto) apical, uma concentração celular no ápice do caule. Por isso, a árvore deixa de crescer para cima

2. A árvore não morre por causa da casca grossa, do súber e das raízes (veja acima). Com isso, as gemas axilares, que ficam nas laterais do caule, germinam, fazendo com que a árvore cresça para os lados

3. O processo de queimada e morte das gemas é contínuo, de modo que os galhos ganham sequências de curvas e ficam "tortos". Afinal, a cada momento, há uma gema axilar brotando para um lado diferente

PERGUNTA DO LEITOR Cristiano da Silva

CONSULTORIA Renata Carnevale, engenheira florestal / FONTES Livro Ecossistemas, da Enge-Rio, e Manual para Recuperação da Vegetação de Cerrado, da Floresta Estadual e Estação Ecológica de Assis
Revista  Mundo Estranho

Onde já nevou no Brasil?

 Ricardo Manini




Pergunta do leitor - Ruan P. Orlandini,

Bonfim Paulista, SP

Já caiu neve nos estados do Sul e Sudeste (exceto Espírito Santo) e também em cidades do Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste. A neve é formada em nuvens com temperatura interna abaixo de 0oC, e no Brasil inteiro há nuvens assim. No entanto, para ela chegar ao chão, a temperatura do ar entre a nuvem e o solo não pode ser positiva em nenhum ponto. Caso contrário, os flocos de gelo derretem e viram gotas de água. No Sul, a neve é mais frequente. Em 2013, 25 cidades do Rio Grande do Sul registraram o fenômeno. Nevou até em Curitiba (PR) e na grande Florianópolis (SC). O acúmulo de neve por aqui, no entanto, costuma ser pequeno: embora já tenha chegado a mais de 1 m de espessura, raramente ultrapassa 10 cm.

No Sudeste, há registros de neve no Parque Nacional de Itatiaia, entre RJ e MG. Em SP, já caiu neve em Cunha e Campos do Jordão

Casos históricos de neve no país

Vacaria, RS, 1879

Um jornal gaúcho publica que, em 7 de agosto, caiu tanta neve que os bois ficaram apenas com os chifres de fora.

São Joaquim, SC, 1957

Neva por oito horas. A cidade fica coberta por sete dias e a Força Aérea Brasileira precisa ajudar enviando medicamentos.

Caxias do Sul, RS, 1975

Primeira partida de futebol com neve no Brasil. O Juventude vence o Inter de Santa Maria por 2 x 0 num campo esbranquiçado.

Santa Catarina, 2013

Há precipitação de neve em um terço das cidades. No Brasil, não há registros anteriores em área tão ampla.

Fontes Site da Biblioteca Nacional

Consultoria Augusto Pereira Filho, Carlos Morales e Fabio Gonçalves, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da USP
Revista Mundo Estranho

Qual o melhor país do mundo para trabalhar?



José Eduardo Coutelle


ILUSTRA Maurício Pierro



Separe o passaporte e tente a sorte em outras nações!


1) O melhor país para... CASAR

Para driblar o estresse de organizar um casório, vá para os EUA. Mais especificamente, Las Vegas, onde basta o casal ser maior de idade, apresentar documento com foto e pagar uma taxa de US$ 60. A licença é expedida na hora e alguns locais realizam uma cerimônia para até 18 convidados por apenas US$ 75! Não é à toa que, só no ano passado, houve 80.493 matrimônios lá



2) O melhor país para...PEGAR UM TÁXI

O jornal Daily Mail comparou tarifas de 27 grandes cidades e deu a taça a Buenos Aires, na Argentina. Como a capital tem mais de 38 mil taxistas licenciados,o preço das corridas foi lá para baixo. A média é de US$ 0,30 por quilômetro percorrido. No Rio,o valor ficou em torno de US$ 0,90. A mais cara é Berlim, na Alemanha: US$ 3,5 por quilômetro



3) O melhor país para...FICAR DOENTE

Ninguém quer adoecer numa viagem, mas, se for acontecer, que seja no Reino Unido. O sistema de saúde público é considerado o melhor do mundo, graças à facilidade, qualidade e eficiência dos atendimentos.O orçamento anual passa dos 110 bilhões de libras. Por isso, quase 90% da população opta pelo atendimento público, também concedido a turistas e imigrantes.Todo formado em medicina precisa passar pelo menos dois anos trabalhando na rede pública. E geralmente fica lá: os salários chegam a R$ 22 mil



4) O melhor país para...MORAR

Junte suas coisas e vá para a Dinamarca, cuja população é a mais feliz do mundo, segundo o World Happiness Report 2013. Motivos de tanta alegria: os índices de corrupção, violência e poluição são baixíssimos,o sistema de saúde e educação é eficiente e há várias leis que estimulam a relação familiar, como licença-maternidade de um ano (com quatro meses remunerados para as mães)



5) O melhor país para...SER PRESO

Outra dor de cabeça que ninguém quer. Mas, se rolar na Noruega, nem precisa encanar muito. A pena máxima é de 21 anos atrás das grades (ela raramente é aplicada e você ainda tem chance de sair bem antes, em condicional). Aliás, esqueça "grades". A prisão de segurança máxima, em Halden, dispõe de suítes individuais com banheiro, frigobar e até TV de plasma!



6) O melhor país para...TRABALHAR

Nada se compara à Suíça. O país emprega oficialmente 79% da sua população em idade ativa e 90% recebe salário acima de US$ 4.538 (boa parte, muito acima disso, segundo o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A média de horas trabalhadas é de 1.632 por ano. Ou seja, descontando férias e fins de semana, não chega a oito horas diárias



7) O melhor país para...TRANSAR

Se você acredita que todo pesquisado é honesto em suas respostas, vá para a Grécia ou para a Nigéria. Cerca de 87% dos gregos dizem que praticam orala e rola pelo menos uma vez por semana, a melhor média mundial segundo uma pesquisa da marca de camisinhas Durex. Os nigerianos se dizem campeões da satisfação: 67% aprovam sua vida sexual


8) O melhor país para...VIAJAR

A equipe de VIAGEM TURISMO indica a Cidade do Cabo, na África do Sul - também no topo da lista deste ano (2014) de veículos como The New York Times, The Guardian e Travel Leisure. Conheça algumas das atrações:

Montanha da Mesa:Essa formação plana no topo domina a paisagem, é cercada por um parque nacional e próxima de quase 100 praias. Aventureiros: se joguem!

Ilha Robben:Foi na prisão de segurança máxima dessa ilha que Nelson Mandela ficou preso por 18 anos. Hoje,o local é patrimônio mundial da Unesco

Beta e Oudekraal:Duas das praias mais bonitas do país, isoladas por formações rochosas e árvores, respectivamente. Águas cristalinas e areias sedosas
Revista Mundo Estranho

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Notícias Geografia Hoje


Opep prevê mercado petrolífero em déficit em 2017


O mercado petrolífero pode voltar ao déficit em 2017, devido à redução da produção dos países não membros da Opep

O mercado petrolífero pode voltar ao déficit em 2017, devido à redução de produção dos países não membros da Opep, segundo um relatório desta organização publicado nesta sexta-feira.

"Há sinais convergentes da queda de produção dos países não membros da OPEP que devem provavelmente dar uma guinada no mercado e colocá-lo em déficit em 2017", após uma redução dos investimentos devido aos baixos preços, estimou a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em seu relatório mensal, apresentado em Viena.

Esta queda da produção é resultado da redução de investimentos em vários países nos últimos meses, devido aos baixos preços do petróleo. Nos Estados Unidos, por exemplo, os poços de exploração caíram em mais da metade em um ano.

A OPEP também apontou a queda substancial da produção na Colômbia, no México e no Cazaquistão. No caso destes dois últimos países, a redução de produção "pode seguir em 2017".

Para 2016, no entanto, o cartel de 13 países, que extrai cerca de um terço do petróleo mundial, continua prevendo uma superprodução, já que suas previsões de produção e de consumo mundiais não se modificaram.

Segundo a organização, a demanda média deve se fixar em 94,18 milhões de barris por dia (mbd), contra uma produção dos países não membros da OPEP de 56,4 mbd.

Na prática, isso significa um excedente de cerca de 1 mbd. Os países da OPEP já extraíram 32,44 mbd em abril, depois de terem extraído 32,25 mbd em março, de acordo com o documento.

"De forma geral, a superprodução persiste e a produção continua sendo elevada", insiste a OPEP, embora existam sinais de que "a situação de superabundância persistente da oferta deve se atenuar".

Recuperação de preços

Os preços já aumentaram 40% desde seu mínimo em janeiro, "impulsionados pela perspectiva de uma aceleração da queda da produção americana de petróleo, um dólar fraco, as interrupções de fornecimento e as previsões de uma importante redução da produção fora da OPEP", segundo o relatório.

Apesar dos conflitos internos, a OPEP nega-se há vários meses a reduzir de forma unilateral sua produção, o que significaria ceder partes do mercado. A Arábia Saudita defende, pelo contrário, saturar o mercado para eliminar os países menos competitivos.

De fato, a produção do cartel tende a crescer, especialmente pelo maior peso do Irã depois do levantamento, em janeiro, das sanções internacionais que asfixiavam o país.

Em abril, a república islâmica, que busca alcançar uma produção de 4 mbd, viu sua produção diária subir em quase 200.000 barris, a 3,45 mbd.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Qual foi o maior tsunami da história?


Patricia Hargreaves

A maior onda do mundo da qual se tem notícia aconteceu em 9 de julho de 1958, na baía de Lituya, no Alasca. Tudo começou quando um terremoto enorme (que atingiu entre 7,9 e 8,3 pontos na escala Richter) sacudiu a falha de Fairweather, a 13 km de onde a onda estourou. O sacode, que foi sentido numa área de 400 mil km², fez com que aproximadamente 30 milhões de m³ de terra e pedras fossem lançados no mar. O impacto dessa massa na água levantou um vagalhão de 524 m de altura! Só para ter uma ideia, a maior onda já surfada, pelo havaiano Garrett McNamara em novembro do ano passado, tinha “apenas” 27 m! O tsunami campeão ganharia fácil do Empire State, prédio de 102 andares em Nova York, que tem cerca de 443 m. A sorte é que esse desastre atingiu uma área desabitada, destruindo apenas a vegetação local.
Revista Mundo  Estranho

Qual é a maior favela do mundo?





Gabriela Portilho
É a comunidade de Kibera, em Nairobi, capital do Quênia, com cerca de 2,5 milhões de habitantes. Como em toda favela, as condições de saneamento, habitação e infraestrutura são extremamente precárias. Pela definição da Organização das Nações Unidas (ONU), favela é um conjunto de moradias em que se vive sem um ou mais dos seguintes itens: água potável, instalações sanitárias próprias, segurança e número suficiente de cômodos. A África é o continente com mais gente nessas condições: 61,7% dos habitantes. Em Serra Leoa, recordista mundial, 97% da população urbana vive em barracos. A Rocinha, maior favela do Brasil, é dez vezes menor do que Kibera, com cerca de 250 mil moradores.

Fonte: Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (Un-Habitat)
Revista Mundo Estranho

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O que foi o Domingo Sangrento?

 
 Julia Moióli

Foi uma passeata civil na cidade de Derry, na Irlanda do Norte, violentamente reprimida pelas autoridades britânicas, deixando 13 mortos e 14 feridos. Os manifestantes protestavam contra a política britânica de prender, sem julgamento, qualquer suspeito de fazer parte do IRA (Exército Republicano Irlandês), grupo terrorista que quer a independência da Irlanda do Norte. Esse território, que possui uma expressiva minoria católica, integra o Reino Unido, que é protestante. O conflito vem de longa data: os primeiros protestantes foram introduzidos na região no século 16, pelo rei Henrique VIII, levando os católicos a se refugiar no norte da ilha. O problema se agravou quando a República da Irlanda (no sul) conseguiu se tornar independente, no século 20, mas o norte continuou sob o domínio britânico.

RUAS SUJAS DE SANGUE

Protesto pacífico virou campo de batalha e acirrou tensões religiosas

1. No ensolarado dia 30 de janeiro de 1972, entre 5 mil e 20 mil pessoas se reúnem na área residencial de Creggan, em Derry, Irlanda do Norte, para reclamar contra as prisões arbitrárias de supostos membros do IRA. Era o segundo dia de marcha pacífica, apesar de o governo ter proibido, em 18 de janeiro, qualquer protesto na Irlanda do Norte até o final daquele ano

2. Às 15h25, os manifestantes já estão na rua Westland, próxima ao centro da cidade. Vinte minutos depois, encontram uma das barricadas do Exército na rua William. Aconselhados pela organização do evento, se desviam pela rua Rossville para se reunir na praça Free Derry Corner. No entanto, parte do grupo continua pela rua William, onde estão tropas britânicas

3. O exato estopim do conflito é incerto. Posteriormente, o general Robert Ford, comandante das tropas inglesas, afirma que elas foram recebidas a tiros pelos civis, mas nenhuma arma é encontrada no local. O fato é que houve o confronto – manifestantes com paus e pedras, soldados com balas de borracha, gás lacrimogênio e jatos de água. Dois civis levam tiros e ficam feridos

Trágica inspiração

A música “Sunday Bloody Sunday” (1983), do grupo irlandês U2, teria sido inspirada por este evento histórico. Nos shows, Bono a canta com uma bandeira branca

Roteiro errado

Parte dos manifestantes seguiram por uma rua barricada e bateram de frente com o Exército

4. O Exército recebe instruções para prender o maior número possível de manifestantes. Uma unidade do Primeiro Batalhão do Regimento de Paraquedistas avança pelas ruas William e Rossville, inclusive com carros blindados e rifles SLR. Após 25 minutos de tiroteio, o saldo já era de 13 mortos e 14 feridos (um deles morreu meses depois por causa dos ferimentos)

5. Nos dias seguintes, em represália, o IRA convoca uma greve geral, atendida por 90% da população local. Manifestantes atiram pedras e bombas e incendeiam carros. Em Dublin, na Irlanda, é ateado fogo à embaixada britânica. O ressentimento dos católicos aumenta, bem como a luta armada por direitos civis – jovens não politizados passam a simpatizar com o IRA

6. O primeiro inquérito pós incidente acusa os civis de terem dado o primeiro tiro (ainda que um legista de Derry afirme que a morte dos manifestantes tenha sido “puro assassinato”). Mas, em 2010, um novo relatório conclui que os disparos do Exército não tiveram justificativas. O primeiro ministro britânico david Cameron se desculpa publicamente no Parlamento

CONSULTORIA: Pedro Paulo Abreu Furnari, professor do departamento de história da Universidade Estadualde Campinas, Tania Regina de Luca, professora de história da Unesp; FONTES sites Britannica Online, The Guardian, The Telegraph, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, BBC e The Museum of Free Derry
Revista Mundo Estranho

Algum país é dono da Antártida?

Gabi Monteiro


ILUSTRA: Yasmin Ayumi

Em teoria, não - o continente não tem governo e nenhum habitante permanente. Na prática, sete países reivindicam parte do local (veja abaixo), mas essa disputa está suspensa até 2040 pelo Tratado da Antártida, que estabelece que ela é um território neutro, voltado somente à pesquisa científica, e proíbe a instalação de bases militares, a exploração de recursos naturais e o teste de armas, entre outros usos. Esse documento foi assinado em 1959, durante a Guerra Fria (ou seja, foi um tratado de paz em uma época de tensão) e entrou em vigor em 1961. Mais de 50 nações aderiram ao tratado, dentre elas o Brasil, que em 1982 inaugurou por lá a Estação Antártica Comandante Ferraz.

DISPUTA GELADA

O mapa acima mostra as áreas reivindicadas do continente por Argentina, Austrália, Chile, França, Reino Unido, Noruega e Nova Zelândia. As fatias reclamadas por Argentina, Chile e Reino Unido se sobrepõem em algumas partes. Além disso, pelo Tratado da Antártida, EUA e Rússia têm o direito de reivindicar território se quiserem. Mas, até 2040, o continente é uma terra neutra, dedicada à ciência

QUER BRINCAR NA NEVE?

Existem hoje cerca de 70 estações de pesquisa no local, operadas por 29 países. Para fazer estudos na Antártida, é necessário não só respeitar o Tratado da Antártida como também o Protocolo de Madri sobre Proteção Ambiental, que entrou em vigor em 1991. Ele proíbe confrontos violentos, atividades com resíduos radioativos, brigas por território e qualquer ato que represente risco à vida selvagem

TERCEIRAS INTENÇÕES

Até 2040, ano em que o tratado deve ser revisado, qualquer exploração voltada à obtenção de recursos naturais, como a extração de minérios e petróleo, está proibida. Essa discussão deve ficar mais polêmica no futuro: além de poder ter petróleo em seu subterrâneo, a Antártida também tem uma larga reserva de água doce - recurso natural que está ficando cada vez mais precioso

FONTES Itamaraty, Ministério do Meio Ambiente, Globo Repórter, COP Grey
Revista Mundo Estranho

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Se existe a Nova Zelândia, onde fica a "velha"?

 Diego Meneghetti

Na região dos Países Baixos, na Europa. Na verdade, esta ilha dinamarquesa, datada de 1300, não leva o "velha" na frente, mas chama-se Zelândia. Junto com a Holanda, eram as duas maiores províncias marítimas dos Países Baixos.


De lá, por volta de 1640, partiram os colonizadores da Oceania. Quando os exploradores aportaram no novo continente, denominaram as duas maiores ilhas como "Nieuw Holland" e "Nieuw Zeeland" (em holandês), em homenagem à terra natal. O nome de Nova Zelândia perdura até hoje, mas, em 1824, a "Nova Holanda" foi renomeada como Austrália.


NOVA DE VERDADE

O prenome do município de Nova Timboteua (PA) não é à toa. Durante as primeiras décadas de 1900, a cidadela paraense de Timboteua se extinguiu devido à estrada de ferro que fora construída lá perto. Anos depois, um novo povoado tomou forma na mesma região e os habitantes decidiram rememorar o nome da cidade fantasma.


HOMENAGENS DISTANTES

Outros exemplos de "novas" cidades e a origem de seu nome.

COLONIZAÇÃO

Os nomes de muitos lugares do continente americano são referência às cidades do Velho Mundo, de onde vieram seus colonizadores.

Cidade - Veio de...

Nova York (EUA) - Yorkshire (Inglaterra)

Nova Orleans (EUA) - Orleans (França)

Nova Friburgo (RJ, Brasil) - Friburgo (Suíça)

Novo Hamburgo (RS, Brasil) - Hamburgo (Alemanha)

SEMELHANÇA

Alguns municípios brasileiros fundados por movimentos migratórios foram nomeados por se parecerem com outras cidades.

Cidade - Veio de...

Nova Maringá (MT) - Maringá (PR)

Novo Progresso (PA) - Progresso (RS)

Novo Horizonte (SP) - Belo Horizonte (MG)

Curiosidade: A cidade brasileira de Nova Iorque (MA) é um aportuguesamento da gringa.

FONTES: Te Ara - The Encyclopedia of New Zealand, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sites das prefeituras municipais.
 Revista Mundo Estranho

terça-feira, 5 de abril de 2016

Quanto espaço ocupam todos os seres humanos da Terra?


Tiago Cordeiro
Depende, porque a distribuição de pessoas pelas áreas habitáveis não é homogênea. Se todo mundo se "apertasse" na mesma proporção que os habitantes do principado europeu de Mônaco, por exemplo, seria possível colocar todos os 7,2 bilhões de habitantes do planeta em Barbados, um pequeno conjunto de ilhas no Caribe! Por outro lado, se fôssemos distribuir os 148.647.000 km2 de área dos continentes entre todos os terráqueos, cada um teria direito a 0,02 km2 (cerca de três campos de futebol) para chamar de seu. O índice que mede a taxa de ocupação de uma determinada área é chamado de "densidade demográfica" e pode variar radicalmente entre países - e mesmo entre cidades num mesmo país.


APERTADOS OU APARTADOS?

Realocamos a população do Brasil pelo mundo segundo a densidade populacional de algumas capitais


TERRÁQUEOS, UNI-VOS!

Veja a que distância média você ficaria de outra pessoa se o mundo todo tivesse a mesma densidade demográfica dos seguintes países:

Mônaco (país com a maior densidade populacional)

população: 36.370

área: 2,02 km2

densidade: 18.004 habitantes por km2

DISTÂNCIA ENTRE VOCÊ E OUTRA PESSOA: 7,4 m


Índia

população: 1,2 bilhão

área: 3.166.414 km2

densidade: 395 habitantes por km2

DISTÂNCIA ENTRE VOCÊ E OUTRA PESSOA: 50 m

China

população: 1,3 bilhão

área: 9.388. 211 km2

densidade: 144 habitantes por km2

DISTÂNCIA ENTRE VOCÊ E OUTRA PESSOA: 83 m

Brasil

população: 204 milhões

área: 8.515.767 km2

densidade: 24 habitantes por km2

DISTÂNCIA ENTRE VOCÊ E OUTRA PESSOA: 204 m

Mongólia (país com a menor densidade demográfica)

população: 2,6 milhões

área: 1.564.116 km2

densidade: 1,7 habitante por km2

DISTÂNCIA ENTRE VOCÊ E OUTRA PESSOA: 766 m
Revista Mundo Estranho
R

sábado, 26 de março de 2016

O maior desafio climático é deixar o carbono no solo

A ciência mostra que para garantir um clima sustentável teremos de manter combustíveis fósseis enterrados


SHUTTERSTOCK

Bill McKibben

Temos algumas vantagens quando se trata de lidar com mudanças climáticas. A primeira é que os parâmetros do problema são notavelmente claros: podemos literalmente ver o derretimento do Ártico, a acidificação oceânica e o mercúrio dos termômetros em constante ascensão. Além disso, secas e inundações reforçam diariamente nossa compreensão da difícil situação em que nos encontramos.

E mais: pesquisadores tornaram relativamente simples entender o que podemos e não podemos fazer daqui para frente. Se realmente quisermos limitar o aumento da temperatura do planeta a 2ºC — e quase todas as nações do mundo concordaram com essa meta em 2009, nas negociações internacionais em Copenhague, na Dinamarca —, então simplesmente temos que deixar a maior parte do carbono de jazidas conhecidas enterrada no subsolo ou no fundo do mar: ele não pode ser queimado.

De fato, um contundente artigo publicado em Nature em janeiro passado listou todos os depósitos de carbono que teriam de permanecer intocados: lugares como as areias betuminosas do Canadá ou os reservatórios de petróleo e gás sob o Ártico. (A Scientific American integra o Nature Publishing Group).

Então: pode ser fácil, ou não. O presidente Barack Obama, por exemplo, viajou ao Alasca no início de setembro para chamar atenção para as mudanças climáticas. Ele visitou aldeias nativas, deu uma olhada em geleiras que estão derretendo, e fez todos os comentários politicamente corretos. Mas na semana anterior ele havia dado a permissão final para a Shell Oil perfurar e prospectar no Ártico — exatamente o tipo da coisa que, de acordo com cientistas, agravará o aquecimento global.

Ao fazer isso, Obama exemplificou nosso dilema. Ele simplesmente não conseguiu fazer frente às forças que querem desenterrar até o último naco de carvão, extrair até a última gota de petróleo.

Para políticos, essa falta de controle tem uma origem bem simples: o poder da indústria de combustíveis fósseis. Ela é o setor mais rico do planeta, e historicamente acabou ganhando absolutamente tudo o que queria. O fato de Obama ter rejeitado o controverso oleoduto Keystone XL é uma mostra singular de coragem; e foi literalmente a primeira vez que um líder mundial disse: “Este é um projeto que não podemos construir devido aos seus efeitos sobre o clima”. Mas normalmente o chamado “Big Oil” (os megaprojetos petrolíferos) é simplesmente grande e poderoso demais.

Duas coisas, porém, talvez mudem essa equação.

Uma delas é o surgimento de um movimento climático real. Ele também está ficando grande e poderoso: no outono boreal passado 400 mil manifestantes marcharam pelas ruas de Nova York, no que foi a maior manifestação sobre qualquer coisa nos EUA há muito, muito tempo. Cada vez mais esse esforço globalestá persuadindo bancos a parar de financiar a próxima rodada de extração. No meio do verão passado, por exemplo, a empresa que planejava construir a maior mina de carvão do mundo no deserto australiano cancelou tudo porque suas linhas de crédito haviam sido cortadas graças a um persistente ativismo.

Mas há ainda um outro fator. Nos últimos seis anos, o preço de painéis solares despencou 75%. Isso torna a energia renovável a alternativa mais barata em grande parte do mundo. Se nos comprometêssemos com essa opção, como demonstrou o professor de engenharia ambiental Mark Jacobson, da Universidade Stanford, e sua equipe, todos os estados da União (e todos os países do planeta) poderiam suprir suas necessidades com eletricidade limpa e confiável a um preço acessível até 2030.

Pesquisas mostram que a maioria das pessoas gostaria dessa mudança. Os que se opõem a ela são as pessoas que são proprietárias de minas de carvão e poços de petróleo — gente que exerce uma boa dose de influência política. Os dois irmãos Koch [Charles e David] juntos, por exemplo, formam o “homem mais rico da Terra”. Eles são barões de petróleo e gás; de fato, eles são os maiores arrendatários daquelas areias betuminosas canadenses que, de acordo com cientistas, compõem uma das jazidas que precisamos deixar em grande parte intocadas, inexploradas. E eles anunciaram que gastarão US$ 900 milhões nas eleições presidenciais americanas no outono de 2016 — isso é mais dinheiro do que os partidos Democrata e Republicano gastaram da última vez.

Essa batalha épica está se desenrolando em tempo real. Podemos facilmente medir a quantidade de dióxido de carbono (CO2) que está sendo lançada na atmosfera. Nesta primavera boreal, pela primeira vez na história da humanidade, os níveis de CO2 passaram de 400 partes por milhão (ppm). O tempo é curto: se não começarmos a exercer contenção muito em breve, então as negociações climáticas em Paris, agora, neste mês, não terão grande importância, porque as mudanças que desencadeamos se autoalimentarão, ou se fortalecerão por si mesmas.

Há dias em que, ao ler o que há de mais novo na ciência, é difícil não ser pessimista. Mas então também há dias, como aquele, neste outono boreal, em que a Shell cancelou seus planos para continuar perfurando o Ártico e, logo em seguida, o governo Obama tomou uma série de decisões dificultando que outros fizessem o mesmo. Talvez isso seja um prenúncio. Humanos são muito espertos para fazer coisas. A pergunta é: eles conseguem não fazer coisas?

Bill McKibben é fundador da campanha climática global 350.org e autor do livro original dirigido ao público em geral (leigo) sobre mudança climática “O fim da Natureza” (Editora Nova Fronteira), que foi publicado originalmente nos Estados Unidos em 1989.
Revista Scientific American Brasil

Dois graus Celsius de liberdade

SHUTTERSTOCK
Ilustração de Andrew J. Nilsen


O mundo ainda pode evitar o perigoso aquecimento global se agir rapidamente


Michael Mann

O mundo tem um árduo caminho pela frente se quiser evitar que o aquecimento da superfície da Terra supere 2 graus Celsius, o limite a partir do qual causaremos graves danos ao planeta. Esse número serve de guia para os compromissos que muitos países vão assumir em Paris, na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas dobre Mudança do Clima, a fim de reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa.



Mas alguns críticos declararam que a meta de não ultrapassar o aumento médio de 2oC é impossível de ser alcançada, alegando que não poderíamos empregar em tempo as tecnologias necessárias para descarbonizar a economia. Sim, nós podemos. O obstáculo não é físico. Ele depende de vontade política e social.

Ninguém disse que será fácil. Mais de 70 especialistas em clima que atuaram como conselheiros para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ressaltaram que limitar o aquecimento global a 2oC “exigirá uma transição radical... não um mero ajuste fino das tendências atuais”.

Nós podemos emitir apenas 300 bilhões de toneladas a mais (270 bilhões de toneladas métricas) de carbono na atmosfera e manter o aquecimento abaixo de 2oC. Com a atual taxa de emissões de mais de 10 bilhões de toneladas por ano, esgotaremos esse “orçamento de carbono” em apenas três décadas. De acordo com uma análise recente, ficar abaixo dos 2oC exigirá que um terço de todas as reservas comprovadas de petróleo, metade de todo o gás natural e 80% do carvão continuem sob a terra.

Isso é pedir bastante. Significa que teremos de começar a suprimir progressivamente o carvão agora e abandonar a maior parte ou toda a areia asfáltica canadense (adeus oleoduto Keystone XL). Também significa que não poderemos queimar cada vez mais gás natural como uma “ponte” para um futuro clima mais limpo dominado por fontes de energia renovável.

A marca de 2oC é com frequência equiparada com manter a concentração atmosférica de dióxido de carbono abaixo de 450 partes por milhão (ppm). O desafio se torna mais difícil à medida que usamos menos carvão. Quando queima, o carvão libera partículas de aerossóis de sulfato na atmosfera que refletem de volta para o espaço parte da energia recebida do Sol. Para o artigo “Uma Falsa Esperança”, publicado em 2014 pela Scientific American, eu calculei que, para compensar a redução a zero das emissões de enxofre até o fim do século, precisamos cumprir a meta de CO2 de cerca de 405 ppm – apenas levemente acima do nível atual.

Podemos fazer isso? O cientista do clima James E. Hansen fez uma convincente defesa de que podemos tirar 100 bilhões de toneladas de carbono do ar com um reflorestamento em massa – limitando o uso da terra o suficiente para permitir que as florestas recuperem a extensão que tinham antes do desmatamento humano. Isso, juntamente com a redução das emissões de carbono em vários pontos porcentuais por ano, o que é difícil, mas exequível, pode levar à meta de estabilização de 2oC.

A história está repleta de declarações precipitadas de inviabilidade que se provaram equivocadas. Como Joe Romm, do Centro para o Progresso Americano, respondeu a críticos de questões climáticas: “Felizmente esses especialistas não estavam por perto quando tivemos de fazer algo realmente difícil, como sofrer milhões de baixas e refazer toda nossa economia quase da noite para o dia para vencer a Segunda Guerra Mundial.” Um acordo inspirado na conferência climática COP-21, que acontece agora em Paris, pode dar início a um ambicioso, mas totalmente viável esforço.

O fator-chave é que há inovações tecnológicas e economias de escala que surgem apenas quando de fato se faz algo. O preço dos painéis solares, por exemplo, caiu mais de 50% no mundo nos últimos anos enquanto a China acelerava sua produção. Os que dizem “não, não podemos” se dedicam a profecias autorrealizáveis. Os EUA nunca foram um país de pessoas que se acham incapazes.

Mesmo com inovação e aprimoramentos, podemos em algum momento ter de empregar tecnologia de “captura direta do ar”, que retira o dióxido de carbono da atmosfera. Isso seria dispendioso, mas Klaus Lackner, professor de engenharia da Universidade do Estado do Arizona, acredita que o custo pode ser reduzido a US$ 30 por tonelada com o volume de produção.

O custo da ação é apenas metade do da inação. Essa conclusão não vem do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Vem da ExxonMobil, que estimou o verdadeiro preço do carbono para a sociedade em US$ 60 por tonelada. Outros projetam um valor ainda mais alto. Temos condições de estabilizar o aquecimento planetário abaixo de dois graus Celsius? Não temos condições de não fazê-lo.

Michael E. Mann é professor emérito de Meteorologia da Universidade do Estado da Pensilvânia. Seu mais recente livro, com Lee R. Kump, é Dire Predictions: Understanding Climate Change (2ª edição, Pearson/DK Publishing, 2015).

Revista Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje

Newton P. U. Barbosa/CBEI

O invasor dourado
Após infestar rios do Sul e Sudeste, chega ao Rio São Francisco molusco asiático que prejudica flora, fauna e tubulações 

Originário da Ásia, o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) foi detectado na América do Sul em 1991 na foz do Rio da Prata, na Argentina. Nas décadas seguintes ele se dispersou pelas bacias do Sul e Sudeste do Brasil, prejudicando a fauna e flora aquáticas e instalações de captação de água e geração de energia.

Em 2015 foi confirmada sua presença no reservatório de Sobradinho, na Bahia, no Rio SãoFrancisco, bem próximo de um dos canais da obra de transposição, trazendo o risco de a invasão se alastrar para a Amazônia.

Pesquisadores do Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras, de Belo Horizonte (MG), que identificaram a presença desse molusco asiático em Sobradinho, escreveram um artigo especialmente para a Scientific American Brasil sobre essa história.

Leia o artigo completo na edição de janeiro da Scientific American Brasil.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Estamos livres de abalos sísmico


Sismo em Minas, em 2007 / Foto: João Wainer/Folhapress

EVANILDO DA SILVEIRA


Os relógios marcavam 3h22 da madrugada do dia 30 de novembro de 1986 quando a pequena cidade de João Câmara (RN), a 90 quilômetros de Natal, foi sacudida por um dos maiores terremotos já registrados no país em área habitada, atingindo 5,1 pontos na escala Richter. Essa magnitude foi apenas 0,6 pontos inferior ao tremor que quase riscou do mapa San Salvador, na América Central, no dia 10 de outubro daquele ano. Além de casas e construções comerciais, o sismo também jogou por terra a certeza de que a maioria dos brasileiros tinha sobre a inviabilidade desses eventos acontecerem em território nacional.

O pesquisador Luis Alberto D’ávila Fernandes, professor titular do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), garante que é totalmente falsa a ideia de que o Brasil está imune a tremores. “Muitas localidades brasileiras acreditavam estar fora das zonas de perigo e dos riscos sísmicos”, diz. Porém, ele complementa, “dois fatores mudaram esse cenário nos últimos 20 anos. O primeiro, o inegável avanço da pesquisa geológica e sismológica no Brasil, que tornou possível a produção de mapas com a catalogação das ocorrências. O segundo, a expansão demográfica decorrente da ocupação territorial. Eventuais abalos que poderiam ocorrer nessas regiões agora ocupadas sem que fossem sentidos ou provocassem qualquer dano à sociedade, hoje passam a ser extremamente importantes, mesmo que de baixa magnitude”.

Os primeiros estudos sobre o assunto realizados no país são mais antigos do que se imagina. Eles foram feitos na segunda metade do século 19 pelo engenheiro Guilherme Schüch (1824-1908), também conhecido por barão de Capanema, título que recebeu de Dom Pedro II. “Incentivado pelo imperador, ele coletou e analisou dados de tremores em todo o país e publicou, em 1859, o primeiro artigo científico sobre o tema no Brasil”, conta o sismólogo José Alberto Vivas Veloso, pesquisador aposentado e ex-chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB). “O trabalho de Capanema é de inestimável valor para a sismologia, já que foi precursor na organização sistemática das informações sobre terremotos em nosso solo”.

O próprio Dom Pedro II sentiu a terra tremer sob seus pés. Às três da tarde do dia 9 de maio de 1886, passou por aquela experiência quando se encontrava em seu palácio na cidade fluminense de Petrópolis. “Foi um abalo de magnitude estimada em 4,3 pontos na escala Richter”, conta Veloso. “Imediatamente, o monarca quis saber o que de fato havia acontecido e determinou que se buscassem informações a respeito daquilo”. E foi além: como membro da Academia de Ciências de Paris, o imperador achou importante relatar os detalhes do tremor ao mundo científico. Com dados do astrônomo Luis Cruls, do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, escreveu um informe que foi publicado nos anais da academia francesa e depois na prestigiosa revista científica “Nature”. Com isso, Dom Pedro II teria se tornado o primeiro brasileiro a ter um trabalho impresso na famosa publicação inglesa.

A história dos terremotos no Brasil, entretanto, começa, pressupõe-se, de um ponto bem mais remoto, num passado longínquo. Trata-se de um tremor de proporções inimagináveis, que pode ter atingido assombrosos 11 pontos na escala Richter, ocorrido há 250 milhões de anos no território nacional. Para uma breve noção de seu gigantismo, ele foi 150 vezesmais forte que o mais poderoso ocorrido no planeta em tempos históricos, que aconteceu no Chile, em 22 de maio de 1960, com 9,5 pontos. Essa forma de medir os sismos que chacoalham a Terra em alguns pontos, inventada em conjunto pelo físico e sismólogo norte-americano Charles Francis Richter (1900-1985) – daí o nome da escala – e seu colega alemão Beno Gutenberg (1889-1960), usa uma progressão logarítmica.

Magnitude 11

Isso significa, em linguagem simples, que cada ponto a mais na escala representa uma magnitude – ou força destruidora – dez vezes maior. Ou seja, um terremoto de 7 pontos na escala Richter libera dez vezes mais energia que um de 6, e cem vezes mais do que um de 5. Também é mito a ideia de que a escala Richter vai até 10. Na verdade, ela não tem limites, nem inferior nem superior. Por isso, matematicamente ela é considerada aberta. A ideia de que ela vai até 10 deve ter surgido pelo fato de que na prática nunca foi registrado um abalo maior do que o do Chile. “Para os grandes sismos, a história mostra que existe uma barreira natural, imposta pela própria geologia, já que as rochas têm um limite de resistência ao esforço e não podem acumular deformações indefinidamente, pois acima de certo patamar, elas se rompem”, explica Veloso.

O pesquisador acompanhou in loco e estudou por um longo período o tremor de João Câmara, experiência retratada no livroO Terremoto que Mexeu com o Brasil. No caso do evento de 250 milhões de anos atrás, Veloso conta que ele não foi causado por movimento das rochas internas da Terra, como todos os outros, mas pela queda de um corpo celeste, um meteorito, a cerca de 500 quilômetros onde hoje está Brasília. O bólido deixou uma cratera no solo, hoje erodida, com 40 quilômetros de diâmetro. “Eu e um colega calculamos que o impacto causado por esse meteorito foi de magnitude 11”, diz Veloso. “Isso provavelmente causou uma destruição absurda”.

Para a sorte dos terráqueos, essas quedas são muito raras. A mais recente a fazer um estrago considerável ocorreu há 65 milhões de anos e resultou na extinção dos dinossauros. Os terremotos comuns, que acontecem todos os dias em algum ponto da Terra, têm causas que vêm do interior do planeta. O globo terrestre é feito de camadas como, grosso modo, uma cebola. No centro está o núcleo, que se divide em duas partes, uma mais interna sólida, por causa da imensa pressão, com 960 quilômetros de diâmetro; e uma de material líquido – devido ao intenso calor –, com cerca de 2.400 quilômetros de espessura, que circunda o núcleo interno. O ponto central desta estrutura dupla – que também é o do planeta –, chamada endosfera, está a uma profundidade de cerca de 6.370 quilômetros.

Acima do núcleo líquido vem o manto, uma camada de consistência pastosa, semelhante à de um asfalto quente, com algumas partes sólidas e uma espessura de cerca de 2.950 quilômetros. Trata-se do magma, que pode ser visto quando expelido pelos vulcões em erupção. A Terra também se divide em duas partes, o manto superior, cuja temperatura é de cerca de 100ºC na sua parte de cima; e o inferior, onde ela pode chegar a 3.500ºC, na sua parte mais profunda, na interface com o núcleo. O manto é recoberto pela crosta, a camada mais superficial e menos espessa do planeta, onde vivemos, com uma média de 40 quilômetros de profundidade. Para comparar, ela é tão fina em relação ao globo terrestre quanto a casca de maçã em relação à fruta. Ela se divide em crosta continental, que pode chegar a 65 quilômetros de espessura nas regiões montanhosas; e oceânica, que em alguns lugares, como as fossas abissais submarinas, tem apenas 5 quilômetros.

A crosta, junto com a camada superior do manto, sólida, forma a litosfera, com 100 quilômetros de espessura. Abaixo dela, até 350 quilômetros de profundidade está a astenosfera, meio pastosa, meio sólida. Na verdade, tecnicamente a definição seria uma consistência dúctil, mais ou menos como o cobre ou o alumínio, por exemplo. Em seguida, até o núcleo, vem a mesosfera. Com outras palavras, Veloso explica que na faixa de 100 quilômetros de profundidade as rochas estão em estado de semifusão. “É nessa zona que se dá a separação da camada superior constituída de material rígido e quebradiço, a litosfera, de outra abaixo, mais dúctil e maleável, a astenosfera”, explica. É aqui que entram as personagens principais na história dos terremotos, as responsáveis diretas por sua ocorrência: as placas tectônicas.

Sua descoberta, na década de 1960, serviu para confirmar uma teoria mais antiga, proposta em 1912 pelo jovem cientista alemão Alfred Wegener (1880-1930), então com 32 anos, e que vinha sendo contestada havia cinco décadas: a deriva continental. Baseado em algumas evidências, como a semelhança das linhas costeiras da África e da América do Sul, que parecem se encaixar como um objeto côncavo e outro convexo, além da existência de rochas, fósseis e animais do mesmo tipo em terras hoje separadas por oceanos, ele propôs que há 200 milhões de anos todos os continentes estavam unidos num supercontinente, que denominou de Pangeia. Ao longo do tempo, essas massas terrestres foram se separando até adquirirem a conformação de hoje.

Fundo do mar

Exposta em seu livro The Origin of Continents and Oceans (A Origem dos Continentes e Oceanos), publicado na Alemanha, em 1915, a teoria de Wegener conseguiu o que raramente uma ideia científica atinge, a quase unanimidade. O problema é que esse consenso era contra a sua teoria. Havia dois motivos para a hipótese levantada por ele não ter sido aceita por seus pares no mundo científico. Um deles, sugerido por Hal Hellman, em seu livro Great Feuds in Science – Ten of the Liveliest Disputes Ever (Grandes Debates da Ciência – Dez das Maiores Contendas de Todos os Tempos), é que o cientista alemão era um estranho no ninho dos geólogos e geofísicos. “Algumas reações soaram também como um protesto do tipo ‘não-no-meu-quintal’, pois Wegener – um astrônomo e meteorologista – era visto como um intruso pelos geocientistas”, escreve no capítulo “Wegener Contra todo Mundo – A Deriva dos Continentes”.

Segundo o próprio Hellman e cientistas de hoje, o motivo principal para a rejeição da teoria era outro, no entanto. O que faltava a ela era um mecanismo, uma força capaz de mover os continentes, erguer montanhas e cavar abismos oceânicos. Wegener propunha que as enormes massas continentais se deslocavam deslizando pelo assoalho marinho sólido. Não sem razão, a ideia foi taxada de absurda. O próprio pesquisador reconhecia a falta de uma força capaz de realizar essa proeza. Na tentativa de encontrar uma solução, ele propôs que a gravidade do Sol e da Lua, atuando como faz com as marés, era a força que movia os continentes. Ou mais precisamente, os segurava.

Wegener imaginou que as gigantescas massas continentais derivavam lentamente para o Oeste, por que a gravidade do Sol e da Lua as seguravam, enquanto a Terra girava para Leste por debaixo delas. “Os físicos reagiram com sarcasmo e mostraram matematicamente que as forças gravitacionais são fracas demais para gerar tamanha peregrinação”, escreveu o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002), no ensaio “A Validação da Deriva Continental”, em seu livro Darwin e os Grandes Enigmas da Vida. “Por isso, Alexander du Toit, o defensor sul-africano de Alfred Wegener, tentou uma estratégia diferente. Defendeu a ideia de um derretimento local, radiativo, do solo oceânico nas fronteiras continentais, que permitiu aos continentes deslizarem”. Não ajudou muito. A teoria da deriva continuou em descrédito.

Os fatos só começaram a se mover a favor de Wegener no final da década de 1950. O primeiro passo foi dado bem antes, no entanto, em 1928, quando o professor de geologia da Universidade de Edimburgo, na Escócia, Arthur Holmes, propôs a existência de correntes de convecção no interior da Terra, que poderiam servir como um mecanismo para mover os continentes. Trata-se de um fenômeno que ocorre em líquidos, gases (como no Sol) ou material pastoso (como no interior da Terra) sob aquecimento. Como numa caneca com água fervendo. Grosso modo, o material aquecido sobe à superfície, resfria e desce, para ser aquecido de novo e reiniciar o ciclo, num movimento mais ou menos circular.

Ainda que correta, a ideia não foi de muita ajuda para a teoria de Wegener – só viria a ser mais tarde, quando outras peças do quebra-cabeça foram descobertas. “Embora as correntes de convecção pudessem servir de motor (para a deriva dos continentes) ainda não estava claro como isso funcionaria exatamente”, escreve Hellman. Só passou a ser entendido quando começaram a se acumular novas informações sobre as dorsais oceânicas, descobertas um século antes, durante a instalação, em 1858, do primeiro cabo submarino metálico transatlântico, interligando a América do Norte e a Inglaterra. Trata-se de enormes cadeias de montanhas submersas, que existem em todos os oceanos e podem chegar a 4 mil metros de altura a partir do assoalho marinho – há uma delas a meio caminho entre o Brasil e a África.

Conhecidas como cordilheiras ou dorsais meso-oceânicas, elas formam uma espécie de costura no fundo dos oceanos, como as de uma bola de futebol, só que com linhas irregulares, com 50 mil quilômetros de extensão. Mas a característica principal delas não está nisso, mas no fato de que elas criam o fundo do mar. A hipótese foi proposta em 1960, por Harry Hess (1906-1969), da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. “A ideia era simples e brilhante: o fundo do mar está sendo criado nas dorsais oceânicas, vindo das profundezas da Terra sob a forma de lava quente e maleável (ou magma)”, escreve Hellman. “Como um novo e longo vulcão erguendo-se de dentro da Terra, o material acumula-se ao emergir, formando a grande cadeia de montanhas que se erguem quilômetros acima do fundo do oceano. O magma também se espalha em duas direções opostas, para fora da dorsal, formando um novo fundo oceânico”.

Essa teoria, comprovada por vários tipos de observações e experimentos, ficou conhecida como espraiamento do fundo mar. A principal implicação é que ela forneceu um mecanismo, um poderoso motor para a deriva continental de Wegener. Como diz Hellman em seu livro, “os continentes pegam carona nesse processo global, que é impulsionado por correntes de convecção no interior do manto”. O próprio Hess explicou sua ideia: “Os continentes não vagam pela crosta oceânica impelidos por forças desconhecidas, mas são passivamente conduzidos pelo material do manto, conforme este chega à superfície da crista dorsal e passa a se afastar lateralmente dela”.

Placa sob tensão

Ainda restava um problema, porém. Como as dorsais podem estar criando e expandindo o assoalho oceânico se a Terra não está crescendo, ou seja, continua do mesmo tamanho que sempre teve desde o seu surgimento, há 4,6 bilhões de anos? Parecia claro para os cientistas que se uma região do planeta está crescendo outra deve estar diminuindo. E de fato, não demorou a se descobrir as chamadas zonas de subducção. Elas ocorrem principalmente às margens do oceano Pacífico, onde a crosta oceânica, mais densa, formada de rochas basálticas, mergulha sob a crosta continental, de granito, menos densa, se consumindo nas profundezas do magma incandescente do manto. Assim, o ciclo se fecha: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma – como diria Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794), considerado o pai da Química moderna, falando de outros elementos. Trocando em miúdos: ou o ciclo se fecha ou retorna ao estágio anterior.

O quebra-cabeça ainda não estava montado, no entanto. Isso foi feito pela Teoria da Tectônica de Placas, surgida em 1968, que uniu as peças-chave, ou seja, a deriva continental, de Wegener, e o espraiamento do assoalho oceânico, de Hess. Essa nova proposta mostrou que a litosfera terrestre está dividida em gigantescas placas rochosas, que flutuam sobre o manto de magma, carregando oceanos e continentes. Existem dez dessas grandes jangadas de pedra – Africana, Antártica, Arábica, Eurasiática, Filipinas, Indo-Australiana, Nazca, Norte-Americana e Caribe, Pacífico e Sul-Americana – e várias outras menores. São essas estruturas que modelam a superfície da Terra, erguendo montanhas e causando terremotos e tsunamis.

Veloso explica que isso ocorre porque elas deslizam e tem contato entre si, ora pressionando umas contra as outras e, por vezes, afastando-se de sua vizinha. Há três tipos de limites ou encontro entre as placas: conservativo (elas deslizam lateralmente uma em relação a outra, sem criação ou destruição de crosta); convergente (chocam-se, podendo formar cadeias de montanhas); e divergentes (afastam-se, formando nova crosta no espaço que ficaria vazio). São nesses limites que acontecem os maiores e mais frequentes terremotos. “Apesar de tudo se mexer, os deslocamentos são organizados e regidos por um ritmo já apelidado de ‘dança dos continentes e dos oceanos’”, ele explica. “A velocidade dessa ‘dança’ é variável. A Sul-Americana e a Africana, por exemplo, separam-se a 35 milímetros/ano, a de Nazca desloca-se rumo à América do Sul a 151 mm/ano. No geral, a velocidade anual é de algumas dezenas de milímetros, mais ou menos a média de crescimento da unha humana”.

Os resultados visíveis dessa “dança” são muitos, além dos terremotos. Os Andes, por exemplo, são o resultado do choque entre a Placa de Nazca, que mergulha sob a parte oeste da Sul-Americana, erguendo a cordilheira. A cadeia do Himalaia, onde estão as maiores montanhas do mundo, como o Everest, com 8.848 metros de altitude, também é resultado do choque de placas tectônicas. O Brasil está integralmente assentado no centro da “jangada” Sul-Americana, longe de suas bordas. Por isso os sismos que ocorrem em seu território não estão entre os mais intensos e destruidores.

As causas dos abalos que vez por outra atingem o território brasileiro, todavia, são semelhantes aos demais tremores registrados no mundo. A placa inteira está sob tensão e como a crosta superior apresenta fraturas ou zonas mais frágeis em alguns pontos, quando as tensões são suficientes para vencer o atrito entre as superfícies adjacentes das quebraduras, elas se movimentam, liberando enorme energia e, por consequência, originando um terremoto. Os sismos que ocorrem no interior de placas tectônicas costumam ser muito mais destrutivos, pois são inesperados e, é comum, não há nenhuma preparação ou prevenção, seja física ou até mesmo psicológica.

Os danos do mais intenso terremoto já registrado no Brasil na era moderna só não foram maiores, porque ocorreu numa área até então pouco habitada. Foi no dia 31 de janeiro de 1955, na Serra do Tombador, no Mato Grosso, e atingiu a magnitude de 6,2 na escala Richter. Cerca de um mês depois, no dia 28 de fevereiro, um novo abalo, o segundo maior da história do país, só que desta vez no mar, ao largo de Vitória, no Espírito Santo, que atingiu 6,1 pontos. Outros sismos com intensidade superior a 5 foram registrados no país, entre eles um em Tubarão (SC), no dia 28 de junho de 1939, e outro em Codajás (AM), em 5 de agosto de 1983, ambos com 5,5 na escala Richter.

O maior terremoto

“A sismicidade da enorme área amazônica foi menos estudada do que a das demais regiões e começou a ser monitorada com atraso em relação ao resto do país”, diz Veloso, salientado que como ela é pouco conhecida, ainda pode apresentar surpresas. Na realidade, ele próprio descobriu uma dessas surpresas, e ela diz respeito ao que pode ter sido o maior terremoto acontecido no Brasil em tempos históricos, mais precisamente em 1690. Baseado em informações de dois jesuítas, Samuel Fritz (1654-1725) e Felipe Bettendorf (1625-1698), que estiveram na região epicentral em épocas diferentes, conversaram com testemunhas e observaram os seus efeitos no terreno. Veloso concluiu que o evento teve o epicentro na margem esquerda do rio Amazonas, a 45 quilômetros abaixo de Manaus. “Após longos estudos concluí pela veracidade das informações dos religiosos e as combinei com conhecimentos modernos de sismologia para estimar a sua magnitude em 7 e sua área de percepção em 2 milhões de km2”, conta.

De acordo com ele, esse sismo alterou significativamente a topografia do terreno devido ao fenômeno da liquefação – passagem do estado sólido para o líquido – do solo e também produziu ondas parecidas a um pequeno tsunami que reverteu momentaneamente a corrente do rio Urubu, inundando aldeias indígenas situadas a 5 quilômetros de sua foz com o Amazonas. “Não existe nada similar em nossa história e assim esse evento, percebido a mais de mil quilômetros do epicentro, ganha o status do maior terremoto brasileiro”, diz. “Há cerca de 300 anos não se falou de grandes prejuízos materiais, ou de vítimas fatais. Hoje não seria assim, pois aquela região se desenvolveu e há maior exposição de pessoas, de construções e de importantes infraestruturas que não foram desenhadas para resistir a sismos tão fortes”.

O terremoto brasileiro que causou impacto econômico e social, no entanto, foi sem dúvida o de João Câmara. “Na verdade, naquele dia aconteceu o maior de uma série de 50 mil abalos, aproximadamente”, explica Veloso. “Em pouco menos de duas horas, além do tremor principal, ocorreram quatro outros com magnitudes entre 4 e 4,3, intercalados por dezenas de réplicas importantes. Em 10 de março de 1989, aconteceu outro de 5 pontos. Em todo o ciclo de atividade, que durou sete anos, foram registrados 20 eventos iguais ou maiores que 4 pontos na escala Richter”. É o que se chama tecnicamente de enxame de sismos.

Em consequência, a pequena cidade, então com 23 mil habitantes, saiu do anonimato e mostrou que o Brasil não está livre de abalos destrutivos. Nada menos que 4.348 edificações tiveram de ser recuperadas ou reconstruídas. Subitamente, surgiram milhares de desabrigados, inclusive de municípios vizinhos, e algumas pessoas perderam praticamente tudo o que tinham. A maior parte da população deixou a cidade e a zona rural, paralisando o comércio, os serviços municipais, as escolas e as atividades agrícolas. O então presidente da República, José Sarney, esteve no local, prometendo reconstruir a cidade, o que de fato aconteceu, com ajuda do corpo de engenharia do Exército.

É um evento que Veloso não esquece. “Tive a oportunidade de viver parte dessa história, pois já estudava aquela atividade sísmica desde agosto de 1986, instalando sismógrafos na área”, lembra. “No dia do terremoto principal, um domingo, curiosamente a data do meu aniversário, fui levado de avião para João Câmara e lá fiquei por duas semanas. Dividi meu tempo atuando como sismólogo, para estudar, com outros colegas, o fenômeno sísmico; como agente de defesa civil, para ajudar e orientar as pessoas; e como repórter/cinegrafista, para documentar os acontecimentos, que depois fizeram parte do livro que lancei recentemente e que é acompanhado por um DVD”. O ex-chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília alerta: “Tremores parecidos com o de 1690 e com o de João Câmara poderão repetir-se em qualquer outra região do país”.
Revista Problemas Brasileiros

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Itaipu para além da geração de energia


Quando há muitas chuvas, a usina hidrelétrica abre as comportas para escoar o excedente de água


Empresa amplia programas com impacto social no Brasil e no Paraguai
 René Ruschel 


Alexandre Marchetti/ Itaipu Binacional


Com 20 unidades geradoras e 14.000 MW de potência instalada, a Itaipu Binacional é líder mundial na geração de energia renovável. Produziu, desde 1984, mais de 2,3 milhões de MWh, sendo responsável pelo abastecimento de aproximadamente 17% de toda a energia consumida pelo Brasil e de 75% do Paraguai. “Gerar energia é e será sempre o nosso principal foco, mas não pode ser a única finalidade. Adotamos uma visão social que beneficiasse tanto o Brasil como Paraguai” afirmou o engenheiro Jorge Miguel Samek, diretor geral brasileiro de Itaipu.

Com este foco, a partir de 2003 a empresa adotou uma nova postura em sua missão empresarial: “gerar energia elétrica de qualidade, com responsabilidade social e ambiental, impulsionando o desenvolvimento econômico, turístico e tecnológico, sustentável, no Brasil e no Paraguai”.

Itaipu também é responsável pelo pagamento de royalties aos municípios que tiveram suas áreas tomadas pelas águas do rio Paraná na formação do lago com área de 1.350 quilômetros quadrados. Em 2014, dezesseis municípios brasileiros receberam US$ 253,1 milhões e o Paraguai, US$ 273,2 milhões. Desde 1985, a soma de recursos destinada aos dois países superou a US$ 9,4 bilhões.

Segundo Samek, uma das ações da empresa para além da geração de energia é o financiamento de projetos nos municípios lindeiros. Dentre estes, dois se destacaram: o Programa Cultivando Água Boa e a criação de um centro de pesquisas tecnológicas.

Água boa

Desde a construção da obra, em 1975, a Itaipu adotou ações pontuais para preservação da flora e da fauna. Mas era preciso ir além. O objetivo do programa Cultivando Água Boa foi conscientizar as comunidades ao entorno do lago da necessidade em preservar o meio ambiente. Realizado em parceria com prefeituras, órgãos públicos, empresas e forte participação da comunidade, o projeto prevê 65 ações integradas.


O projeto Cultivando Água Boa ajuda na preservação do entorno

Santa Helena, município de 25 mil habitantes e que teve 40% de suas terras agricultáveis alagadas pela barragem, é um retrato 3x4 de que, com consciência ambiental, a história pode ser reescrita. “Com a adoção de ações práticas como conservação do solo, adubação e preservação dos rios, a produtividade em algumas propriedades rurais aumentou em até 40%” afirmou o prefeito Jucerlei Sotoriva (PP). Para ele, o processo de conscientização da população foi fundamental para a credibilidade do novo modelo de gestão. “A sociedade precisa ver para crer”.

Outra medida importante é o projeto de lixo reciclável. A primeira mudança foi conceitual. Os garis deixaram de ser considerados catadores de lixo para se transformarem em “agentes ambientais”. Hoje, com uma renda familiar mensal que pode chegar até a R$ 3 mil reais, são responsáveis pela coleta de 80 toneladas/mês de material reciclável. Enquanto no Brasil a média de reaproveitamento do lixo doméstico não chega a 20%, em Santa Helena passa de 80%, inclusive na zona rural do município.

E para que nada se perca no futuro, o projeto “Coletivo Educador” se encarrega de educar crianças e jovens em parceria com educadores nas escolas, por meio de redes sociais e uma web rádio que espalha informações. “Todas essas ações sincronizadas são parte do programa Cultivando Água Boa. Aqui, as pessoas aprenderam que preservar o meio ambiente, além de reconstruir a natureza, é uma ótima fonte de renda” afirmou Sotoriva. Em Santa Helena, os royalties se transformaram em energia social.

Parque tecnológico

O antigoALOJAMENTO de operários virou parque tecnológicoOutra medida nesse sentido foi a criação da Fundação Parque Tecnológico Itaipu. O objetivo do PTI é desenvolver e impulsionar projetos e programas voltados a distribuição de conhecimento científico e tecnológico e o desenvolvimento regional. A infraestrutura física estava montada. Durante a construção da hidrelétrica, quando cerca de 45 mil pessoas trabalharam diretamente na sua execução, foram erguidosALOJAMENTOS para abrigar 10 mil empregados solteiros que viviam sem suas famílias. Com o fim da obra, essa estrutura ficou sem uso.

A ideia foi aproveitar esse espaço somado a experiência técnica dos engenheiros e professores. “O projeto da Itaipu previa a demolição de toda essa área física. Para nossa sorte, essa área permaneceu intacta. Assim, transformamos os alojamentos em centros de pesquisa e universidades” lembra Samek.

Além da área física, a Itaipu forneceu equipamentos e laboratórios, disponibilizou professores com mestrado e doutorado e todo material necessário para seu funcionamento. Atualmente, estão alojados ao PTI a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNOESTE); a Universidade Aberta do Brasil (UAB) e a Universidade Federal de Integração Latino-americana (UNILA). Entre alunos, professores e funcionários, são mais de 6.000 pessoas que usufruem diretamente de seus benefícios, sendo a metade estudantes.

Para Samek, o grande legado de Itaipu nesses últimos 12 anos é a somatória de ações técnicas com uma visãosocial capaz de solidificar um novo modelo gestão que traga benefícios diretos e imediatos a sociedade. “Gerar energia e distribuir royalties são importantes, mas a conscientização fundamentada em princípios e valores de sustentabilidades, aliada a uma nova cultura organizacional, é que fará diferença às novas gerações”.

A empresa quer fortalecer a preservação ambiental de seu entorno (foto: Kelsen Fernandes/ Fotos Públicas)

Revista Carta Capital

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos