domingo, 14 de setembro de 2014

Notícias Geografia Hoje


China amplia influência sobre Argentina


FELIPE GUTIERREZ
DE BUENOS AIRES
RENATA AGOSTINI
DE BRASÍLIA



O crescimento da influência da China sobre a Argentina nunca foi tão visível quanto em 2014. Medidas inéditas de apoio financeiro anunciadas neste ano somam-se à invasão de produtos chineses no mercado vizinho.

O avanço ocorre a despeito da decisão do Brasil de priorizar as relações políticas e comerciais com a Argentina nos últimos anos. Diante da situação financeira difícil que vive o país vizinho, é de Pequim que partem os principais acenos de ajuda.

Num intervalo de poucas semanas, a China anunciou cerca de US$ 7 bilhões em financiamentos para obras de infraestrutura e um acordo com o Banco Central argentino que permitirá a entrada de US$ 11 bilhões no país —US$ 700 milhões até o fim do ano.

O acordo é vital para o governo de Cristina Kirchner, que sofre com a falta de dólares. As reservas internacionais estão em cerca de US$ 28 bilhões, o que pode levar a dificuldades em honrar pagamentos com o exterior.
O dinheiro virá inicialmente em yuan (moeda chinesa), que a Argentina poderá converter. Depois, virá em dólar.
Editoria de Arte/Folhapress 


PRINCIPAL PARCEIRO

A Argentina é o principal parceiro comercial do Brasil na região e destino de grande parte dos bens manufaturados nacionais. Apesar disso, segundo representantes do governo ouvidos pela Folha, seria difícil justificar uma ajuda financeira ao vizinho num momento de baixo crescimento e de dificuldades fiscais no Brasil (o Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior não comentaram oficialmente o tema).

A China vem aproveitando a brecha. Além do acordo entre os bancos centrais, o governo chinês anunciou em julho que vai financiar com US$ 4,7 bilhões a construção de duas grandes hidrelétricas e com outros US$ 2,1 bilhões a renovação de uma ferrovia.

Os financiamentos ajudam a impulsionar as vendas ao país, como foi o caso dos vagões de trens chineses à Argentina, fechadas em 2010. A compra foi financiada por Pequim, que liberou uma linha de US$ 10 bilhões ao país.

À montanha de dinheiro soma-se US$ 11,4 bilhões que os bancos chineses despejaram na economia argentina em empréstimos de 2005 a 2011, segundo dados do centro de estudos americano Inter-American Dialogue.

No mesmo período, o BNDES, banco de fomento brasileiro, direcionou US$ 2,5 bilhões a companhias com obras no país vizinho.

A inação brasileira na Argentina vêm sendo acompanhada de uma fatura alta: a fatia detida pelo Brasil no mercado argentino caiu de 36,4%, em 2005, para 22,5%, de janeiro a julho deste ano. A da China subiu de 5,3% para 16,2% no mesmo período.
Folha de S. Paulo

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Xenofobia no Japão

Japão recebe críticas da ONU após onda de xenofobia nas ruas

Ewerthon Tobace
De Tóquio para a BBC Brasil



"Estrangeiros só poderão entrar se estiverem acompanhados de um japonês", diz a placa


Uma recente onda de casos de xenofobia tem causado grande preocupação no Japão e levou a ONU a pedir que o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe tomasse medidas concretas para lidar com o problema.

As principais vítimas nesse incidentes têm sido comunidades estrangeiras como a de coreanos e chineses, além de outras minorias chamadas de "inimigas do Japão".

Um exemplo dos abusos é um vídeo que se tornou viral e circula pelas redes sociais. Mostra um grupo de homens da extrema-direita com megafones em frente a uma escola sul-coreana em Osaka.

Eles insultam os alunos e professores com palavrões, fazem piadas com a cultura do país vizinho e ameaçam de morte os que se atreverem a sair do prédio.

Um relatório do Comitê de Direitos Humanos da ONU encaminhado ao governo japonês, destaca a reação passiva dos policiais em manifestações deste tipo.

As autoridades têm sido criticadas por apenas observarem, sem tomarem nenhuma atitude efetiva para conter os abusos.

No final de agosto, o Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial solicitou que o país "abordasse com firmeza as manifestações de ódio e racismo, bem como a incitação à violência racial e ódio durante manifestações públicas".

Desde 2013, o Japão registrou mais de 360 casos de manifestações e discursos racistas.

A questão ganhou os holofotes da mídia e está sendo amplamente debatida pelo partido governista, o Liberal Democrático.

Um caso que está sendo visto como teste para a Justiça japonesa nesta área é a ação movida, no mês passado, por uma jornalista sul-coreana, Lee Sinhae, contra Makoto Sakurai, presidente do grupo de extrema-direita Zaitokukai, por danos morais.


Ela quer uma indenização depois de ser "humilhada" por textos discriminatórios na internet.

"O que me preocupa é que muitos destes discursos estão deixando o anonimato da internet e já chegaram às ruas", disse Lee em uma coletiva de imprensa.

A jornalista alertou que várias crianças estão tendo contato com este tipo de pensamento e replicam no ambiente escolar, gerando casos de bullying.
Lei

No Japão, não há uma lei que proíba discursos difamatórios ou ofensivos. Para os opositores, banir os discursos de ódio pode acabar interferindo no direito das pessoas à liberdade de expressão.

Mas o país é signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que entrou em vigor em 1969, e que reconhece expressões discriminatórias como crime.

Pela Convenção, os países seriam obrigados a rejeitar todas as formas de propaganda destinadas a justificar ou promover o ódio racial e a discriminação e tomar ações legais contra eles.

Segundo as Nações Unidas, o governo japonês ainda tem muito para fazer nesta área. O comitê da ONU insistiu para que o Japão implemente urgentemente "medidas adequadas para rever a sua legislação", em particular o seu código penal, para regular o discurso de ódio.
Exclusão dos estrangeiros

Para o escritor, ativista e pesquisador norte-americano naturalizado japonês Arudou Debito, "(essas atitudes discriminatórias) têm se tornado cada vez mais evidentes, organizadas e consideradas 'normais'".

Debito coleciona, desde 1999, fotos de placas de lojas, bares, restaurantes, karaokês, muitas delas enviadas por leitores de todo o Japão, com frases em inglês - e até em português - proibindo a entrada de estrangeiros.

A coletânea virou livro, intitulado Somente japoneses: o caso das termas de Otaru e discriminação racial no Japão.

Debito se diz ainda preocupado que, com a divulgação cada vez maior dos pensamentos da extrema-direita, a causa ganhe cada vez mais "fãs".

"No Japão ainda há a crença de que é pouco provável haver o extremismo em uma 'sociedade tão pacífica'", explicou.

"Eu não acredito que seja tão simples assim. Ignorar os problemas de ódio, intolerância e exclusivismo para com as minorias esperando que eles simplesmente desapareçam é um pensamento positivo demais e historicamente perigoso."


Aviso em um hotel de águas termais alerta que estrangeiros não podem entrar


Brasileiros

A comunidade brasileira no Japão também é alvo constante de atitudes discriminatórias. Quarto maior grupo entre os estrangeiros que vivem no país, os brasileiros estão constantemente reclamando de abusos gerados por discriminação racial e o tema é sempre levantado em discussões com autoridades locais.

O brasileiro Ricardo Yasunori Miyata, 37, é um dos que foi à Justiça depois que o irmão foi confundido com um ladrão em um supermercado de uma grande rede, na cidade de Hamamatsu, província de Shizuoka.

"O problema foi a abordagem. O segurança chegou gritando, como se ele fosse bandido e, mesmo depois de provado que tudo não passou de um engano, ele (o segurança) justificou que faz parte da índole do brasileiro roubar e que não poderíamos reclamar pois deveríamos estar acostumado com este tipo de coisa", contou o rapaz, ainda indignado.

O caso aconteceu há quatro anos, mas até hoje Ricardo divulga a história para que outros não passem pelo mesmo constrangimento pelo qual ele e a família passaram.

"Acionamos a polícia, fizemos a reclamação na matriz da rede, procuramos um advogado e, por semanas, os gerentes do supermercado tentaram nos convencer a não entrar com processo", lembra.

Depois de três meses, foi feito um acordo. "A rede trocou a empresa que faz a segurança local, pagou todas as despesas com advogados e exigimos ainda que os gerentes pedissem desculpas em público", contou Ricardo.

Há 20 anos morando no Japão, o brasileiro lembra que antigamente a situação era bem pior. "Quando entrava brasileiro em supermercados, por exemplo, geralmente tocavam uma música brasileira. Era um sinal para avisar os funcionários de que havia estrangeiro na loja", contou.

Ricardo já foi barrado em bares e também sofreu todo tipo agressão verbal. "Esse tipo de discriminação existe, é visível e constante. Enquanto as autoridades e a própria mídia não tomarem uma posição, esses abusos vão continuar acontecendo", destacou.
BBC Brasil

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Como aumentar a produtividade no Brasil?

Luiza Bandeira
Da BBC Brasil em Londres



Educação e investimento de empresas foram sugestões para aumentar produtividade

Como resolver o problema da baixa produtividade do trabalhador no Brasil?

Melhorias na educação, aumento do investimento em tecnologia pelas próprias empresas e trabalho conjunto entre as firmas e universidades foram algumas das sugestões que a BBC Brasil ouviu de especialistas de diversas áreas.

Grande parte dos economistas brasileiros afirma que, num contexto de baixo desemprego, é preciso aumentar a produtividade dos trabalhadores para acelerar o crescimento econômico do país.

A necessidade de investimento na educação, tanto no nível fundamental como também no ensino médio e profissionalizante, foi quase unanimidade nas respostas.

Só não foi citada por Marcelo Manzano, economista da Unicamp.

"Não é a qualificação da mão de obra que fará as taxas de produtividade no país avançarem. A produtividade do trabalho não decorre da qualificação do trabalhador, mas sim da intensidade com que as inovações tecnológicas são implementadas no processo produtivo", disse à BBC Brasil.

"Em nenhum momento da história mundial a qualificação puxou a produtividade."

Já Haruo Ishikawa, do Sinduscon-SP, que representa as empresas da construção civil, diz que os trabalhadores que chegam na área têm tantas lacunas na educação básica que não conseguem decidir sua profissão levando em conta três critérios básicos: o que eles querem fazer, o que sabem fazer e em que áreas há demanda por trabalhadores.

Por isso, segundo Ishikawa, fazem escolhas erradas - e essa inadequação derruba a produtividade da mão de obra.

E a baixa produtividade de um setor pode afetar todos os outros, segundo Jorge Arbache, economista da UnB. Ele afirma que, como as empresas são cada vez mais dependentes uma das outras, as que têm baixa produtividade acabam puxando todas as outras para baixo.

Ele sugere estabelecer um currículo nacional, valorizar a educação profissional, melhorar tecnologias e o ambiente físico das empresas, entre outras medidas.

Rogério César de Souza, do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), acrescenta à lista a aproximação entre empresas e academia. Ele cita como exemplo bem sucedido o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), uma das melhores instituições de ensino do Brasil, que funciona em parceria com a Embraer, uma das grandes fabricantes globais de aviões.

Mas Fernando de Holanda Barbosa Filho, economista do Ibre-FGV, diz que as empresas investem pouco, tanto no trabalhador, devido à alta rotatividade, quanto nelas mesmas, por causa dos resultados econômicos do país.

"Se a situação econômica melhorar, se as firmas passarem a investir mais, isso ajudará a aumentar a produtividade da mão de obra", afirma.


O trabalhador tem que ter máquina e equipamento e tem que estar apto a usar essas tecnologias. Ou seja, há dois pontos importantes: melhorar a qualidade do capital humano, com educação, e investimento em capital.

Os índices de matrícula no ensino médio são baixos, menos de 55% dos adolescentes estão na escola. Isso é um problema porque as novas tecnologias demandam algum tipo de conhecimento. Imagina uma pessoa sem conhecimento operar uma colheitadeira? Esses equipamentos têm GPS, joystick, é tudo feito por satélite.

As empresas dão treinamento específico, mas pensam "não vou dar formação geral senão o empregado pode sair e levar para qualquer lugar". Isso não é só no Brasil. O que acontece só no Brasil é que nossa legislação de alguma forma estimula uma rotatividade elevada, o que faz com que a firma não invista.

Há um acordo tácito em que o trabalhador não investe na firma e firma não investe no trabalhador. A rotatividade é prejudicial porque inibe o investimento que as firmas poderiam fazer pra corrigir a má formação da mão de obra.

Um segundo ponto é o investimento da firma na firma. O fato de as perspectivas econômicas das empresas terem sido frustradas gerou uma taxa de investimento menor. O trabalhador está operando com máquinas menos modernas e isso não faz com que produtividade aumente. Se a situação econômica melhorar, se as firmas passarem a investir mais, isso ajudará a aumentar a produtividade da mão de obra.
BBC Brasil

Notícias Geografia Hoje

Dia da Catalunha tem manifestações pró e contra a independência


Milhares de pessoas em Barcelona participaram de ato com bandeiras e vestindo camisetas com a frase 'agora é a hora'

BARCELONA - Milhares de pessoas participaram nesta quinta-feira, 11, de uma manifestação em Barcelona em favor de um referendo pela soberania proposta pelo governo regional da Catalunha, que seria realizado em 9 de novembro e é considerado ilegal pelo Executivo.

Segundo a delegação do governo espanhol na Catalunha, entre 470 e 520 mil pessoas participaram do ato, hasteando bandeiras, vestindo camisetas nas cores amarelo e vermelho com a frase "agora é a hora" e gritando "independência!" em catalão. A Guarda Urbana de Barcelona afirmou que a manifestação contou com a presença de 1,8 milhão de pessoas.

A manifestação da Via Catalã, convocada pela Assembleia Nacional Catalã e a associação Omnium Cultural, ocorreu sem incidentes e terminou em um clima festivo, com apresentações musicais e de castelos humanos, típicos da Catalunha.

Participaram da manifestação dirigentes de diversos partidos nacionalistas que apoiam explicitamente a consulta de soberania. O presidente regional catalão e principal incentivador do plebiscito, Artur Mas, não esteve presente.

O movimento separatista foi impulsionado pelo referendo de independência escocês que ocorrerá dia 18. Diferentemente do caso escocês, um referendo na Catalunha não resultaria automaticamente na cisão com a Espanha. O plebiscito proposto por Mas perguntaria aos catalães se eles são a favor da secessão. Se a resposta for sim, Mas afirma, isso daria a ele uma margem política para negociar um caminho em direção à independência.

Ao mesmo tempo, foi realizado em Tarragona, no sul da Catalunha, uma manifestação contra a independência da região que contou com a participação de milhares de pessoas, organizada pela plataforma Societat Civil Catalã (SCC).

A manifestação foi apoiada pelo Partido Popular da Catalunha, braço do Partido Popular na comunidade autônoma.

Os dois protestos ocorreram no Dia da Catalunha, que neste ano coincide com o 300.º aniversário da queda de Barcelona diante do assédio das tropas bourbônicas durante a Guerra de Sucessão.

Pesquisas sugerem que a votação sobre a Escócia está quase empatada e isso cativou uma variedade ampla de grupos além dos separatistas catalães. Eles incluem os bascos pró-independência no norte da Espanha, os corsos que querem sua separação da França, os italianos de diversas regiões no norte e os flamengos Bélgica. / DOW JONES e EFE
JORNAL O ESTADO DE S. PAULO

Independência da Escócia

Escoceces vão às urnas sobre independência: Cinco questões


Vanessa Barford
BBC News



Escoceses vão às urnas no dia 18 deste mês para decidir sobre independência

No próximo dia 18 de setembro, os escoceses vão às ruas para decidir se permanecem no Reino Unido - junto com Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte - ou se seguem o caminho da independência.

Ao longo de séculos de história, os escoceses lutaram ferrenhamente para manter-se como nação soberana. A atual união política com a Inglaterra, oficializada há 305 anos, ocorreu, em parte, em meio a uma séria crise financeira.

As pesquisas, que antes apontavam uma vitória confortável do "não" à separação, hoje sugerem uma disputa apertada. Entre os cinco milhões de escoceses, os que argumentam pela independência dizem que a economia, as políticas sociais e a criatividade escocesas floresceriam se o país tivesse mais autonomia.

Para o campo oposto, a Escócia está mais segura fazendo parte do Reino Unido. Muitos se contentariam com mais autonomia financeira e legal para o Parlamento escocês - já o Legislativo com maior grau de "poderes devolvidos" por Westminster à população local de Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales.

Dois debates acalorados entre o líder da campanha Better Together(Melhor Juntos), Alistair Darling, e o líder do movimento nacionalista escocês, Yes Scotland (Sim, Escócia), Alex Salmond, ainda não persuadiram totalmente os indecisos.

Salmond, líder do Partido Nacional Escocês, governista, e chefe do governo escocês, e Darling, representante do Partido Trabalhista britânico, deixaram de lado as amenidades e partiram para a ofensiva na tentativa de ganhar os eleitores.

A BBC Brasil preparou uma lista de cinco pontos que os leitores levarão em conta na hora de fazer sua escolha.

1. Moeda

A questão da moeda a ser adotada por uma Escócia independente tem atraído atenção na campanha do referendo. Nos debates, Darling indicou que caso a Escócia vote pela independência, não poderá manter a libra esterlina como moeda nacional.

Salmond diz que é perfeitamente possível para a Escócia continuar usando a libra, da mesma forma que outras nações usam o dólar sem a necessidade de pedir permissão ao governo americano. Entretanto, o descompasso entre as duas economias pode trazer consequências ruins para o novo país.

Por exemplo, no caso de um aumento na taxa de juros, que seria decidida apenas pelo Banco Central ao sul da fronteira, sem qualquer controle de Edimburgo.

Se abrir mão da libra, a autoridade monetária escocesa teria de provar aos investidores que tem competência para administrar sua própria moeda sem sair imprimindo dinheiro quando o governo decidisse gastar mais. Até que os mercados se convencessem disso, argumentam os céticos, a Escócia teria de pagar juros mais altos sobre empréstimos.

A campanha do "não" também alerta para a possibilidade de algumas empresas britânicas deixarem a Escócia. A Inglaterra continuaria sendo o maior parceiro econômico de uma Escócia independente; no entanto, variações na taxa de câmbio entre a libra e a nova moeda escocesa poderiam elevar os custos para as empresas, criando incentivos para que se mudassem.

O desejo de pertencer a um mercado maior (o inglês) ou, no caso de empresas do setor financeiro, de fazer parte do principal centro financeiro da Europa - Londres -, também poderia levar empresas a cruzar a fronteira.

Essas questões são consideradas por Salmond como uma forma de intimidar o povo escocês. Ele acredita que uma união monetária por meio da libra pode ser negociada entre as duas partes. Caso contrário, argumenta, a Escócia teria direito a recusar responsabilidade sobre uma fração da dívida britânica.

A Escócia poderia ainda adotar o euro, a moeda da União Europeia, mas o governo escocês já disse que não é favorável a essa opção.

2. Petróleo

As reservas de gás e petróleo do Mar do Norte são outro tema quentíssimo nesse referendo.

Salmond diz que uma Escócia independente reservaria um décimo da renda do petróleo - que a ala Yes Scotland calcula ser equivalente a £1 bilhão, ou US$ 1,6 bilhão - para criar um fundo de reserva que acumularia, em uma geração, £30 bilhões, quase US$ 50 bilhões.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, diz que a exploração do petróleo no Mar do Norte tem sido uma história de sucesso para a Grã-Bretanha. Mas nesse momento, em que a extração vai se tornando mais difícil, é importante que a indústria do petróleo possa se apoiar nos "ombros largos" do Reino Unido, argumenta.

Parte do problema é que as reservas de petróleo não são renováveis, e não há consenso, entre especialistas, em relação à quantidade de petróleo que ainda resta na região.

O governo britânico prevê que os impostos arrecadados com o petróleo vão cair de £6 bilhões em 2012-13 para £3,5 bilhões em 2018-19.

O governo escocês calcula que mais de 90% dos £6 bilhões arrecadados vieram de águas escocesas. As previsões de renda do "setor escocês" em 2018-19 variam entre £3,2 bilhões e £8 bilhões.

Previsões desse tipo são complicadas. Elas levam em conta a quantidade extraída de petróleo e gás, os preços globais, índices de impostos e flutuações na taxa de câmbio entre a libra e o dólar.

Alguns especialistas creem que os números escoceses estejam superestimados em até 60%. Outros, que os ganhos escoceses futuros podem ser seis vezes maiores do que os britânicos estimam. A dúvida não facilita uma decisão por parte do eleitorado.

3. Fronteiras

Declarações de que a fronteira entre os dois países teria de ser controlada caso a Escócia se tornasse independente também têm gerado discussões.

A polêmica resulta das posições de Salmond em relação à imigração. Ele espera aumentar a entrada de imigrantes na Escócia em 10% - de 22 mil para 24 mil pessoas por ano - para expandir a força de trabalho e, dessa forma, contribuir para financiar a aposentadoria dos escoceses.

O chefe do governo escocês argumenta que uma Escócia independente não precisaria de postos de controle na fronteira, já que o país continuaria a integrar a área de transito livre de que fazem parte o restante do Reino Unido, a República da Irlanda, a Ilha de Man e as ilhas no Canal da Mancha.

Atualmente, Reino Unido e República da Irlanda não fazem parte do chamado acordo de Schengen, que permite trânsito livre, sem passaporte, entre vários países europeus.

A ministra do Interior britânica, Theresa May, disse considerar a possibilidade de "algum tipo de controle de fronteira". Ed Miliband, líder do Partido Trabalhista, disse que um governo trabalhista também consideraria a criação de postos na fronteira se a Escócia optasse pela independência.

A preocupação é que as regras de imigração em cada lado da fronteira sejam diferentes, servindo de incentivo para imigrantes ilegais desembarcarem na Escócia e para então se deslocarem para a Inglaterra.

Além disso, existe a questão da entrada ou não da Escócia na União Europeia. Analistas acreditam que o novo país muito provavelmente teria de solicitar sua entrada na União Europeia, em cujo caso talvez fosse obrigada a assinar o acordo de Schengen.

Se isto acontecer, Escócia e o país ao sul da fronteira teriam regras migratórias diferentes, implicando a necessidade de algum tipo de controle fronteiriço.

Entre as questões que mais preocupam os eleitores britânicos, a imigração só perde em importância para o tópico economia, segundo pesquisas de opinião.

4. A União Europeia

A questão da entrada na UE não se refere apenas às regras migratórias. A dúvida é se uma Escócia independente teria de negociar sua participação no bloco como país integrante ou partindo do zero, como país novato.

Para o Yes Scotland, a negociação se daria pela continuidade do status atual; a ala Better Together diz que a Escócia teria de sair da EU e depois requisitar admissão, o que levaria anos.

O atual presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso, diz que seria dificílimo para a Escócia ser admitida na UE. Mas intelectuais como a acadêmica da Universidade de Oxford Sionaidh Douglas-Scott creem que o processo seria relativamente simples.

Para o Reino Unido, a questão é importante porque influenciaria as suas relações com o novo país em áreas como direitos humanos e comércio exterior.

5. Defesa nuclear

Outro tema controverso é o sistema britânico de defesa nuclear - atualmente composto de quatro submarinos carregados com os mísseis Trident. O programa está instalado na Base Naval de Clyde, na costa oeste da Escócia, desde a década de 1960.

O governo britânico diz que não tem planos de transferir o sistema caso a Escócia vote pela independência.

Tanto os partidos Conservador quanto Trabalhista britânicos querem que o sistema atual seja substituído por outro, igual, no final da década de 2020. Liberal Democratas querem diminuir o número de submarinos para três.

No entanto, o governo escocês diz que, se a Escócia votar "sim", o programa Trident será removido quando as armas forem recolhidas, em 2020. Salmond propõe incluir em uma Constituição a proibição à instalação de armas nucleares no país.

Alguns analistas acreditam que a independência da Escócia equivaleria a uma "declaração unilateral de desarmamento" britânica.
BBC Brasil

Notícias Geografia Hoje

Independência da Escócia: receita para desastre ou prosperidade?


Matthew Wall
BBC News


Referendo que decidirá o futuro da Escócia será realizado em 18 de setembro; pesquisas apontam para vitória do 'sim'

Com pouco mais de uma semana para o referendo que decidirá o futuro da Escócia, banqueiros, investidores e economistas alertam para o impacto econômico de uma eventual ruptura do Reino Unido.

No dia 18 de setembro, os escoceses irão às urnas para responder com "sim" ou "não" se querem que o país se separe da Grã-Bretanha.

Alguns especialistas argumentam que, embora a cisão possa trazer consequências negativas no primeiro momento, uma Escócia independente seria financeiramente viável a longo prazo.

Confira abaixo a opinião de alguns economistas sobre o assunto.
Russ Koesterich, chefe de investimentos estratégicos do fundo BlackRock

Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, Koesterich, chefe do departamento de investimentos estratégicos do maior fundo do mundo, afirmou que a independência pode frear a retomada da economia do Reino Unido.

"Todo mundo está focado na geopolítica, por causa do que está acontecendo na Ucrânia e no Oriente Médio...mas isso (a independência da Escócia) ainda não tinha entrado no radar dos investidores, especialmente dos americanos porque ninguém achou que o 'sim' teria chances de ganhar".

"Mas caso a Escócia se torne independente, então investidores teriam de aceitar um período prolongado de incertezas sobre os ativos britânicos, desde o valor da moeda às ações".
Paul Krugman, economista

"Tenham medo, muito medo", diz Paul Krugman sobre eventual independência da Escócia

Em sua coluna no jornal New York Times, Krugman, um dos economistas mais renomados do mundo, mandou uma mensagem de alerta para a Escócia.

"Tenham medo, muito medo. Os riscos de se tornar independente são imensos. As pessoas podem até achar que a Escócia pode se transformar em um novo Canadá, mas é bem provável que acabe como uma Espanha sem luz do sol", afirmou.

Sobre a possibilidade de a Escócia manter a libra como moeda, Krugman afirmou: "A combinação da independência política com uma moeda compartilhada é a receita do desastre".

O economista americano, vencedor do prêmio Nobel de Economia em 2008, classificou como "incompreensível" a reivindicação pela autonomia da Escócia.
Oliver Harvey, estrategista de mercado de câmbio do Deutsche Bank

Em linha com Krugman, Harvey escreveu em um comunicado do banco a investidores: "Escócia: tenha medo, muito medo".

"As implicações se o 'sim' ganhar serão imensas...", disse ele.

"Do lado do câmbio, a independência poderia, na pior das hipóteses, levar a uma crise desestabilizadora de todo o sistema bancário britânico e, na melhor das hipóteses, deixar o resto do Reino Unido com uma união monetária instável na qual o Banco da Inglaterra será forçado a continuar a prover liquidez aos bancos da Escócia enquanto Westminster tentará alcançar um acordo monetário e fiscal com o novo governo soberano escocês.

"Um voto pelo sim tiraria dos trilhos a recuperação da economia do Reino Unido. A Escócia representa o segundo maior parceiro comercial do Reino Unido após a União Europeia e planos de investimentos de muitas empresas devem ser adiados até que as questões sobre câmbio, regulação e tributos sejam minimamente esclarecidas".
Ben Chu, editor de economia do jornal britânico The Independent


Um estado escocês é "perfeitamente viável", argumenta Ben Chu


Um estado escocês é "perfeitamente viável", argumenta Chu. "Algumas das profecias mais bárbaras sobre o fracasso [da independência] não são convincentes".

"O dinheiro proveniente do petróleo no Mar do Norte escocês acabaria em um determinado momento, mas o país teria uma população de elevado nível educacional. O crescimento da produtividade e a prosperidade da Escócia no futuro dependeriam, portanto, das fundações do capital humano".

No curto prazo, no entanto, Chu admite que: "Os investimentos das empresas, que, na última década, se encontram, lamentavelmente, a níveis baixos, podem permanecer estáticos em meio às incertezas de um evento voto pelo 'sim'. Isso não ajudaria nem a Escócia nem o Reino Unido a se recuperar da maior crise desde a década de 30".

Na opinião de Chu, muito dependerá da decisão da Escócia de manter a libra como moeda, aceitando, assim, um certo grau de controle de Westminster, o que, para muitos escoceses pró-independência, seria "intragável".
Credit Suisse

Os economistas do banco suíço alertaram que a Escócia pode cair em uma "recessão profunda" caso se torne independente do Reino Unido. "A re-domiciliação do setor financeiro e dos empregos no funcionalismo público, assim como a disputa legal sobre o petróleo do Mar do Norte, poderiam acelerar qualquer turbulência", informou um comunicado divulgado pelo banco.

"Estimamos que, na medida em que a produção de petróleo no Mar do Norte diminuir, a economia não-atrelada a esse setor precisaria de uma desvalorização de 10% a 20% para resgatar competitividade. Isso exigiria uma redução de 5% a 10% nos salários, impulsionada por um forte aumento do desemprego.
Goldman Sachs

O banco de investimentos acredita que os efeitos a curto prazo de um voto pelo sim no referendo da Escócia poderia provocar "consequências severas" para as economias dos dois países.

"Numa eventual vitória do 'sim', as consequência imediatas para a economia da Escócia, e para o Reino Unido mais amplamente, poderiam ser fortemente negativas", afirmou um comunicado do banco na semana passada.

Longas negociações sobre a divisão da dívida nacional do Reino Unido, a moeda e a integração da Escócia à União Europeia levariam a "um período prolongado de incerteza", disse o banco. "Isso poderia trazer consequências econômicas negativas para a Escócia e para o Reino Unido."

"Mesmo que a união monetária se mantenha no caso de uma vitória do 'sim', a ameaça de um eventual rompimento incentivaria investidores a vender ativos na Escócia enquanto correntistas ficariam mais suscetíveis a retirar depósitos dos bancos escoceses", acrescentou a nota.

Mas a longo prazo, o Goldman Sachs acredita que "há pouca razão para uma Escócia independente não prosperar: não há nenhuma evidência que sugira que países menores são mais ricos ou mais pobres".
BBC Brasil

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pobreza ronda maioria dos trabalhadores de países emergentes, diz estudo

Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil



Relatório destaca uma 'grave penúria de empregos de qualidade'

Mais da metade dos trabalhadores nos países emergentesdo G20 está perto da linha pobreza, segundo um estudo conjunto realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização para a Cooperação Econômica (OCDE) e o Banco Mundial, divulgado nesta terça-feira.

Segundo o relatório Mercados de Trabalho do G20: perspectivas, principais desafios e respostas políticas, cerca de 837 milhões de trabalhadores nas economias emergentes do G20 "são pobres" e ganharam somente até US$ 4 por dia (cerca de R$ 9 na cotação atual) em 2013.

Desse total, estima-se que 447 milhões de trabalhadores nos países emergentes do G20 sejam "extremamente" pobres (renda inferior à linha da pobreza, que é de US$ 1,25 por dia) ou "moderadamente" pobres, com ganhos de até US$ 2 diários.

Os com salários de US$ 2 a US$ 4 são considerados "próximos à pobreza".

O G20 reúne as principais economias ricas e emergentes, além da União Europeia, e representa 80% do comércio mundial.

Os dados em relação à pobreza dos trabalhadores nos emergentes do G20 incluem números do Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul (que formam os Brics), além da Argentina, Indonésia, México, Arábia Saudita e Turquia.

O estudo foi divulgado na véspera da reunião de ministros do Trabalho do G20, que será realizada em Melbourne, na Austrália, nos dias 10 e 11.

O documento ressalta que os emergentes do G20 fizeram "progressos enormes" na redução da pobreza extrema (abaixo de U$ 1,25) e moderada dos trabalhadores.

Nesses países, o número de pessoas que ganham até US$ 2 diários foi reduzido pela metade desde 1991, totalizando atualmente 447 milhões.

"Mas a pobreza dos trabalhadores ainda permanece um grande desafio para esses países", afirma o estudo.
Penúria de empregos

O relatório também destaca que "uma grave penúria de empregos de qualidade" perdura nos países do G20 e que isso afeta as perspectivas de retomada do crescimento econômico.

Mais de 100 milhões de pessoas continuam desempregadas nos países do G20.

"A performance medíocre do mercado de trabalho ameaça a retomada do crescimento, porque freia o consumo e o investimento", ressaltam as organizações internacionais. "O G20 está confrontado a uma fraqueza persistente do emprego tanto em quantidade quanto em qualidade."

O relatório ressalta que, apesar de alguns avanços recentes, a demora na retomada do crescimento após a crise financeira mundial, iniciada em 2008, significa que muitas economias do G20 ainda "sofrem de um déficit considerável na criação de empregos".

"Isso deverá se estender até 2018 se não houver uma certa expansão do crescimento", preveem as organizações.
Salários

O documento afirma ainda que o crescimento dos salários ficou abaixo dos aumentos de produtividade na maior parte dos países do G20. Esse fenômeno é mais acentuado nas economias ricas.

Os salários reais (descontada a inflação) estagnaram ou até mesmo caíram em várias economias avançadas do G20, segundo o relatório.

Os emergentes do G20 enfrentam outro problema: os altos índices de subemprego e de trabalho informal, sem registro, que "pesam na produção e na produtividade futura".

"O emprego informal continua sendo um grande obstáculo para amelhoria da qualidade do emprego, particularmente nos países emergentes e em desenvolvimento".

A OIT, a OCDE e o Banco Mundial recomendam, para pôr fim ao ciclo atual de crescimento econômico baixo e fraca criação de empregos, a intervenção dos governos na demanda e na oferta de empregos.

"Essas políticas seriam mais eficazes se fossem tomadas coletivamente pelo G20", diz o relatório.
BBC Btasil

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Emissão de gás carbônico no mundo tem maior salto desde 1984



Emissões de CO2 deram um novo salto entre 2012 e 2013

A concentração de gases do efeito estufa na atmosfera atingiu níveis recordes em 2013, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Entre 2012 e o ano passado, a taxa de acúmulo de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera teve o crescimento mais rápido em um ano desde 1984.

A OMM afirmou que o relatório ressalta a importância de um acordo mundial para limitar a emissões de gases do efeito estufa.

Em 2009, líderes de todo o mundo concordaram em fechar um tratado para manter um aumento na temperatura global de no máximo 2ºC até 2020.

O Boletim anual de Gases do Efeito Estufa não mede a produção de emissões, mas registra a quantidade de gases que permanecem na atmosfera depois das interações com terra, ar e oceanos.

Cerca de metade das emissões acaba absorvida por mares, florestas e seres vivos.

Mesmo assim, a concentração de CO2 na atmosfera bateu 396 partes por milhão (ppm) em 2013, um aumento de quase 3ppm em comparação com o ano anterior.
Crescimento recorde

"O boletim mostra que, bem longe de estar caindo, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera de fato subiu no último ano na taxa mais rápida em quase 30 anos", disse o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud.

A concentração de CO2 atual é de 142% dos níveis de 1750, ou seja, antes do início da Revolução Industrial.

O acúmulo de outro potente gás de efeito estufa, o metano, foi de 253%.

O estudo também indica que o crescimento recorde do CO2 em 2013 não se deve apenas a mais emissões, mas a uma redução na capacidade de absorção de carbono pela biosfera.

A descoberta intrigou cientistas da OMM. A última vez que se constatou uma redução no nível de absorção da biosfera foi em 1998, quando houve um pico de queima de biomassa, aliado a um intenso El Niño.

"Já em 2013 não houve impactos óbvios na biosfera, portanto, é ainda mais preocupante", disse o chefe da divisão de Pesquisa Atmosféria da OMM, Oksana Tarasova.

"Não entendemos se isso é uma coisa temporária ou permanente, e isso é preocupante."

Tarasova afirma que a descoberta pode indicar que a biosfera atingiu o seu limite, mas destaca que é impossível confirmá-lo no momento.

Os dados compilados pela OMM cobrem os anos de 1990 a 2013 e mostram que gases como CO2, metano e óxido nitroso (N20), que sobrevivem na atmosfera por muitos anos, contribuíram para um aumento de 34% no aquecimento global.

No entanto, a temperatura global média não subiu paralelamente à elevação da concentração de CO2, o que levou muitos a afirmarem que o aquecimento global havia parado.

"O sistema climático não é linear, não é simples. Não há necessariamente um reflexo da temperatura na atmosfera, mas se analisarmos o perfil de temperatura dos oceanos, vê-se que o calor está indo para os mares", disse Oksana Tarasova.

O relatório também inclui pela primeira vez dados sobre a acidificação do mar provocada pelo dióxido de carbono.

A OMM diz que diariamente os oceanos absorvem cerca de 4kg de CO2 por pessoa. Os pesquisadores acreditam que a atual taxa de acidificação seja a maior dos últimos 300 milhões de anos.

Diante das evidências, a OMM urge líderes mundiais a tomarem decisões contundentes sobre a política climática.

Em 23 de setembro será realizado em Nova York um encontro extraordinário sobre o clima, convocado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

No fim do ano, a ONU promove a sua reunião anual sobre mudanças climáticas, desta vez em Lima, no Peru.

A expectativa é que os dois encontros cheguem ao consenso necessário para um novo acordo climático mundial na reunião anual da ONU de 2015, em Paris.

No entanto, até o momento não se tem qualquer previsão de como transformar o acordo em algo legalmente vinculante, para que seja, de fato, efetivo.
BBC Brasil

Água demais pode fazer mal e até matar

Em uma cultura obcecada pela hidratação, é possível sofrer uma overdose de água

Coco Ballantyne

Água mortal: beber água mais rapidamente do que seu corpo consegue eliminar por meio do suor, urina ou expiração pode matar você
Que a água é essencial para a vida, todo mundo sabe. O líquido constitui 66% do corpo humano e está presente no sangue e nas células, além de preencher os espaços entre eles. O corpo perde água a todo o momento por meio do suor, da urina, fezes e expiração, entre outras “rotas de fuga”. Reabastecer os estoques é essencial, mas a reidratação também pode ser excessiva. Uma overdose de água pode ser fatal.

No começo de 2007, uma mulher de 28 anos de idade, na Califórnia, morreu após participar de um concurso de uma rádio para ver quem conseguia tomar mais água. Após ingerir seis litros em apenas três horas na competição – cujo prêmio era um videogame Nintendo –, Jennifer Strange vomitou, foi para casa com uma terrível dor de cabeça e morreu de “intoxicação por água”.

Há outros exemplos de mortes trágicas por excesso de água. Em 2005, em uma república de estudantes na California State University, uma mulher de 21 anos morreu depois de ser forçada a beber quantidades absurdas de água entre sessões de flexões de braço, em um porão gelado. Já houve também casos de morte de usuários de ecstasy em boates, depois de beberem grandes quantidades de água para tentar se reidratar após noites seguidas dançando e suando. Um estudo de 2005 do New England Journal of Medicine revelou que cerca de um sexto dos maratonistas desenvolvem algum grau de hiponatremia, ou diluição do sangue, que acontece quando se bebe água demais.

Ao pé da letra, hiponatremia quer dizer “sal insuficiente no sangue”, ou seja, uma concentração de sódio no sangue abaixo de 135 milimoles por litro – a concentração normal fica entre 135 e 145 milimoles por litro. Casos graves de hiponatremia podem levar à intoxicação por água, uma doença cujos sintomas incluem dores de cabeça, fadiga, náusea, vômito, urinação freqüente e desorientação mental.
Em humanos, os rins controlam a quantidade de água, sais e outros solutos que deixam o organismo, “peneirando” o sangue através de seus milhões de túbulos. Quando uma pessoa bebe água demais em pouco tempo, os órgãos não conseguem liberar essas substâncias rapidamente o bastante, e o sangue fica “encharcado”. Atraída por regiões onde a concentração de sais e outras substâncias dissolvidas é mais alta, a água em excesso deixa o sangue e entra imediatamente nas células, que incham como balões para conseguirem acomodá-la. 

A maioria das células tem espaço para se expandir, pois fica em tecidos flexíveis, como gordura e músculo, mas este não é o caso dos neurônios, apertados dentro da caixa craniana – que ainda é dividida com o sangue e o líquido cérebro-espinhal, explica Wolfgang Liedtke, neurocientista clínico do Centro Médico da Duke University. “No crânio quase não há espaço para que eles se expandam ou inchem”, ele afirma. 

É por isso que o edema ou inchaço cerebral pode ser desastroso. “A hiponatremia rápida e grave causa a entrada de água nos neurônios, levando ao inchaço que se manifesta em convulsões, coma, falha respiratória, hérnia cerebral e morte”, explica M. Amin Arnaout, chefe da nefrologia do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School.

E onde as pessoas arranjaram essa idéia de que beber enormes quantidades de água é saudável? Anos atrás, Heinz Valtin, especialista em nefrologia da Dartmouth Medical School, decidiu verificar se o conselho comum de se tomar oito copos de água por dia resistiria à prova científica. Após pesquisar toda a literatura científica sobre o assunto, Valtin concluiu que nenhum estudo endossa os oitos copos de água diários (para adultos saudáveis que vivem em climas temperados e fazem algum tipo de exercício). Na verdade, tomar essa quantidade de água ou mais “poderia ser prejudicial, tanto pelo perigo da hiponatremia quanto pela exposição a poluentes, além de fazer com que as pessoas se sintam culpadas por não beberem água suficiente”, ele escreveu no American Journal of Physiology—Regulatory, Integrative and Comparative Physiology em 2002. Desde a publicação de sua descoberta, diz Valtin, “nenhum estudo em uma publicação na área provou o contrário.”
A maioria dos casos de intoxicação por água não acontece simplesmente por beber água demais, explica Joseph Verbalis, do Georgetown University Medical Center. “Geralmente é uma combinação de ingestão excessiva de líquidos e maior secreção de hormônio antidiurético, ele diz.” Produzido pelo hipotálamo e secretado na corrente sanguínea pela glândula pituitária posterior, esse hormônio faz com que os rins retenham água. A sua secreção aumenta em períodos de estresse físico – durante uma maratona, por exemplo – e pode fazer com que o organismo retenha água mesmo se a pessoa beber quantidades excessivas. 

A cada hora, um rim saudável em repouso consegue excretar de 800 a 1000ml de água – assim, uma pessoa pode beber água a uma velocidade de 800 a 1000ml por hora sem ter um ganho líquido da substância, explica Verbalis. Se a mesma pessoa está correndo uma maratona, no entanto, o estresse da situação irá aumentar os níveis do hormônio antidiurético, reduzindo a capacidade de excreção para até 100ml por hora. Beber de 800 a 1000ml de água por hora sob essas condições poderia levar a um ganho líquido em água, mesmo se a pessoa estiver suando consideravelmente, ele diz. 

Ao praticar exercícios físicos, “você deveria equilibrar a quantidade da água que bebe com a quantidade de suor que produz”, e isso inclui bebidas isotônicas, que também podem causar hiponatremia quando consumidas em excesso, aconselha Verbalis. “Se você está suando 500ml por hora, deveria ingerir o mesmo volume de água.”

No entanto, medir o suor não é nada fácil. Como um maratonista, ou qualquer pessoa, pode determinar o volume de água a ser consumido? Se você é saudável e ainda tem um barômetro de sede que não tenha sido prejudicado pela idade ou pelo uso de medicamentos, siga o conselho de Verbalis: “beba água de acordo com sua sede. É o melhor indicador”.
Scientific American Brasil

Notícias Geografia Hoje



Seca deixa milhões com fome na América Central
Estiagem devastou lavouras centro-americanas. Mais de 2,8 milhões de pessoas lutam por alimento

Divulgação

Gustavo Palencia e Agência Reuters

Orocuina, Honduras — A informação foi divulgada pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP, na sigla em inglês) na quinta-feira, dia 4 de setembro. Embora a safra de café da região tenha sido em grande parte poupada, a seca, que também afeta a América do Sul, tem sido particularmente severa no chamado “corredor seco” da América Central, que inclui o sul da Guatemala, o norte de Honduras e o oeste de El Salvador.

“A seca nos matou. Perdemos todo o nosso milho e feijão”, lamenta Olman Funez, um lavrador de 22 anos, que vive em Orocuina, uma cidadezinha rural no sul de Honduras.

Funez ganha uma diária de US$ 4,74 [pouco mais de R$ 10] para trabalhar na lavoura, e confessa que ele e sua mulher estão racionando os poucos alimentos que têm.

O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, recentemente liberou a importação de 40 mil toneladas de feijão vermelho e 73,5 toneladas de milho para ajudar a pressionar os preços para baixo.

A Guatemala, por outro lado, decretou estado de emergência depois que 256 mil famílias perderam suas colheitas.

“Tenho 60 anos e esta é a primeira vez que vi uma crise como essa”, observou Jesus Samayoa, um agricultor de Jutiapa, a cerca de160 kmde distância da capital, Cidade da Guatemala.

Produtores de ervilhas, vagens e brócolis estimam ter perdido entre 30% e 40% de suas safras. 

A Asociación Nacional del Café guatemalteca (Anacafe) havia anunciado no início do mês que um levantamento feito nas duas principais regiões produtoras, Santa Rosa e Jutiapa, revelou que a estiagem resultará em uma quebra de 3% na safra da próxima estação, o equivalente a cerca de 9.600 sacas de60 kg.

No entanto, em vista da estiagem, nenhum dos quatro grandes produtores cafeeiros centro-americanos — Honduras, Costa Rica, El Salvador e Nicarágua — revisou até agora suas previsões de produção para a próxima temporada.

(Reportagens adicionais por Sofia Menchu em Jutiapa, Ivan Castro em Manágua, Nelson Renteriaem San Salvadore David Alire Garcia na Cidade do México; Redação por Alexandra Alper e Anahi Rama; Edição por Simon Gardner e Ken Wills).

Scientific American Brasil

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Notícias Geografia Hoje

Protecionismo deixa o Brasil fora do jogo global
As políticas protecionistas isolaram o Brasil das grandes cadeias globais de produção. O resultado: o país hoje não é bom competidor nem na faixa de produtos baratos nem na de itens sofisticados

São Paulo - Para ser reconhecido como uma nação independente, em 1822, o Império brasileiro assinou acordos comerciais com vários países, que previam baixíssimas tarifas deimportação. Era a ruína para a nascente indústria local.

A facilidade dos estrangeiros em vender qualquer coisa aoBrasil era tamanha que comprávamos até patins de gelo da Inglaterra — embora não se tenha notícia de que dom Pedro I e a nobreza patinassem na Serra de Petrópolis.

Não demorou até que uma ideia se formasse: para o ­país se desenvolver era preciso manter os importados longe de nossas fronteiras, abrindo espaço para a criação de um amplo parque industrial.

Em 1897, o ministro da Indústria, Joaquim Murtinho, um liberal, afirmava que o protecionismo criaria “indústrias artificiais”, que sobreviveriam à custa de incentivos e da imposição de preços mais altos ao consumidor.

“Nenhum povo dispõe nem das aptidões, nem dos elementos naturais, nem dos recursos econômicos para estabelecer empresas de todos os gêneros.” E alertou: “O resultado dessa política industrial nós conhecemos de uma forma bem dolorosa”.

Como se sabe, a advertência do ministro Murtinho foi ignorada, e o Brasil se tornou um dos países mais isolados do mundo. E, a despeito de não ter sido ouvido, ele acertou duplamente. Primeiro, porque ainda hoje, mesmo depois da abertura comercial de 1990, há empresas brasileiras que só sobrevivem por estar protegidas da competição global.

O Brasil ainda tem espaço a percorrer na abertura à competição externa. Segundo, ao dizer que nenhum país pode almejar ter um parque industrial completo, ele sem querer estava prevendo um modo de produção cada vez mais relevante: a divisão das atividades em cadeias globais de valor.

Nessa nova realidade, a produção é fragmentada em etapas e distribuída pelo mundo. Adotam a estratégia setores como automotivo, eletroeletrônico, calçadista, aeroespacial e vários serviços, como criação de software. Esse modo de produção ganha corpo desde os anos 80.

A americana Nike, ao terceirizar a produção de calçados para fabricantes asiáticos, mantendo em sua matriz o design e o marketing, foi uma das primeiras a seguir essa via. Nos últimos anos, a redução dos custos de frete marítimo e o desenvolvimento das telecomunicações e da tecnologia da informação impulsionaram o fenômeno.

A troca de mercadorias dentro das cadeias representou 60% do aumento do comércio internacional, que saiu de 1 trihão de dólares em 1990 para 4,5 trilhões de dólares em 2010. No fim das contas, trata-se de jogar em escala global o conceito do economista britânico ­Ronald Coese, ganhador do Prêmio Nobel de Economia.

No livro A Natureza da Firma, de 1937, Coese defendeu a ideia de que uma empresa, para aumentar o lucro, deve mirar as atividades em que é mais eficiente e terceirizar o resto — e isso, nos tempos atuais, significa terceirizar onde quer que seja mais vantajoso no mundo.

Se para uma empresa disseminar a produção pelo planeta é a forma de ter os melhores fornecedores pelo menor preço, para os países o que importa é ter indústrias inseridas nas cadeias de suprimento internacionais. Por que isso é bom?

Um estudo da Organização das Nações Unidas mostrou que firmas inseridas nas cadeias globais têm produtividade 55% maior do que as que vendem e compram apenas no mercado interno.

“A competição que a participação nas cadeias provoca é um ótimo indutor de produtividade e competitividade”, diz Carlos Abijaodi, diretor de desenvolvimento industrial da Confederação Nacional da Indústria. Aumentar a produtividade é a chave para o crescimento sustentável de qualquer país.

O mesmo estudo não deixa dúvidas: os países que mais se integraram às cadeias globais de 1990 a 2010 tiveram um crescimento do PIB per capita 2,6 pontos percentuais acima da média dos países que ficaram de fora.

“Cada vez mais as cadeias globais de valor são uma forma de aumentar a riqueza das nações”, diz Koen de Backer, economista sênior da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne as 34 economias mais ricas.

Conteúdo nacional

O Brasil — que surpresa! — está fora do jogo. Por aqui, a ideia de que um país próspero é um país com muitas indústrias foi dominante ao longo de boa parte do século 20. Para promover a industrialização, os governos não economizaram: gastaram milhões de reais (réis, cruzeiros, cruzados...) em subsídios à produção local.

Também jogaram os impostos de importação nas alturas. É verdade que, graças a essa política, existe aqui um dos maiores e mais diversificados parques industriais entre os países emergentes. Em contrapartida, incentivou-se a existência de empresas pouco competitivas internacionalmente.

Hoje o país tem um índice de inserção nas cadeias globais de 33%, segundo a OCDE. Numranking com 53 países, ocupamos a antepenúltima posição, atrás da Argentina e da África do Sul. O ranking é liderado por asiáticos, como Singapura e Coreia do Sul, e europeus, como República Checa, Bélgica e Irlanda.


Germano Lüders/EXAME

Serviço para fora: a GE Celma, de Petrópolis (RJ), faz a reparação de motores para companhias aéreas. Em 2013, a maior parte de sua receita de quase 1 bilhão de dólares veio de fora do país

Todos esses têm taxas de participação superiores a 60%. Países que costumam ser comparados com o Brasil, seja por tamanho, por tipo de economia, seja por grau de desenvolvimento, como Estados Unidos, Austrália e México, estão mais integrados do que nós, com índices entre 40% e 60%.

O índice é formado por duas variáveis. A primeira é a quantidade de insumos importados pelas empresas que são usados na produção de um bem que será exportado. Esse é um modo de inserção que permite às empresas cumprir os ensinamentos de Coese. A Embraer é, talvez, a companhia brasileira mais inserida dessa forma.

Um avião montado no Brasil tem componentes de vários países. Seus fornecedores estão entre os considerados melhores do mundo — os mesmos, aliás, de concorrentes como a canadenseBombardier e a americana Boeing, caso da fabricante americana de motores Pratt&Whitney e da francesa Thales, produtora de sistemas de navegação.

Isso foi fundamental para que a ­Embraer há anos tenha deixado de ser uma fabricante de aeronaves para o Brasil e tenha se tornado uma das principais vendedoras do ramo no mundo. A Embraer fechou 2013 como a quinta maior no mercado de jatos executivos e a terceira no de aviões comerciais. Suas encomendas vêm de 60 países de todos os continentes.

“Se a Embraer tivesse de cumprir regras de conteúdo nacional, alguns setores seriam beneficiados no Brasil. Mas será que ela conseguiria ser competitiva globalmente?”, diz Timothy Sturgeon, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um dos autores do livro A Indústria Brasileira e as Cadeias Globais de Valor, lançado no início deste ano.

A segunda variável que compõe o índice de inserção nas cadeias mede a participação dos bens intermediários produzidos por um país que são usados por empresas de outros países. A fabricante de pás de turbinas eólicas Tecsis é um caso de brasileira bem inserida em uma cadeia global, no caso a de equipamento de geração de energia.

A empresa, com sede em Sorocaba, no interior de São Paulo, é fornecedora de multinacionais como GE, Alstom e Siemens e deve exportar neste ano 70% da produção. Isso lhe confere um décimo do mercado global de pás eólicas. “Uma de nossas diferenças é que fazemos pás sob medida para cada cliente no mundo”, diz Pércio de Souza, presidente do conselho de administração da Tecsis.

Embraer e Tecsis são casos descritos pelos analistas como ilhas de excelência, raras empresas que conseguem superar os problemas do Brasil. A maior parte da inserção brasileira nas cadeias globais se dá pela exportação de bens primários, essencialmente commodities.

Um exemplo é a soja. Perto de 95% das exportações brasileiras para a China consistem em grãos não processados. Quem transforma os grãos em óleo ou farinha são empresas chinesas. Elas ficam com uma parte da cadeia que gera maior valor. A isso se chama “escalar” nas cadeias globais.

Tome-se, em um extremo oposto, o iPhone. Dos 650 dólares de um ­iPhone 4, a Apple, criadora do produto e responsável por seu marketing, fica com 270. Fornecedores coreanos de insumos de alta tecnologia levam 80 dólares.

E a China, que só monta o aparelho, não fica nem com 7 dólares. Além de se inserir mais nas cadeias de produção, portanto, o Brasil tem de avançar nos elos mais sofisticados das atividades.

“Não podemos negar nossas vantagens comparativas, mas também não podemos nos contentar em ser fornecedores de matérias-primas para sempre”, diz Pedro Passos, sócio da fabricante de cosméticos Natura e presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. “Precisamos nos tornar mais competitivos para participar das etapas das cadeias globais que geram maior riqueza.”

Custos e ineficiência

Por ora, o Brasil encontra-se no pior dos mundos para aumentar sua participação nas cadeias. Uma deficiência básica em se tratando de comércio exterior é nosso isolamento.

Enquanto o mundo reorganiza as trocas com base em acordos de livre comércio — como os bilaterais que foram feitos nos últimos anos pelo Chile e os que estão sendo negociados entre Estados Unidos e União Europeia e Estados Unidos e países asiáticos —, o Brasil ainda se mantém preso ao Mercosul.

A tentativa de um acordo com a União Europeia caminha vagarosamente. Outros problemas são internos. A indústria brasileira está imprensada entre custos elevados de um lado e ineficiência de outro. Poucas situações são mais eloquentes do que a de nossa mão de obra.

O Brasil é, hoje, um país “nem nem” — nem eficiente nem barato. Um estudo da consultoria PwCmostrou que o salário médio no Brasil é 948 dólares. Mais do que o dobro do México e 80% maior do que o da China. Isso seria um problema menor se, embora cara, a mão de obra fosse qualificada. Não é o caso.

O Brasil está na 57a posição num ranking com 122 países sobre a qualidade da mão de obra. Na atual situação, não temos mão de obra barata para competir com as empresas de países como Vietnã e Bangladesh, nem com a qualificação para disputar com americanos, coreanos ou alemães.

“Nossa mão de obra é muito mais cara do que a de outros países, inclusive da Europa”, diz Antônio Salvador Soares, presidente da unidade brasileira da multinacional americana Howden, produtora de ventiladores e compressores com 175 funcionários em sua fábrica em Itatiba, no interior paulista.

De acordo com ele, isso é resultado dos aumentos salariais à média de 1,5 ponto percentual acima da inflação por ano concedidos desde 2009. Nesse período, os ganhos de produtividade na empresa não acompanharam os aumentos da remuneração. No mercado, a competição com os importados pressionou as margens de lucro.

“Para não perder clientes, há quatro anos não reajustamos os preços”, afirma Soares. Para Pércio de Souza, da Tecsis, a maior dificuldade atual é encontrar e manter funcionários qualificados. “Mais de 60% das pessoas contratadas precisam de um mês de treinamento intensivo para começar a produzir”, diz.

A lista de problemas é longa. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulomostrou que os custos tributários, de capital de giro, logísticos, de energia e de matéria-prima tornam os produtos brasileiros em média 30% mais caros do que os chineses, 28% acima da média dos similares de México, Índia e Chile, e 23% mais caros do que os de países desenvolvidos, como Estados Unidos, Alemanha e Japão.

Se levarmos em conta que esses custos altos convivem com uma infraestrutura capenga, entre outras ineficiências, não é difícil entender por que só algumas delas conseguem ser competitivas globalmente. O aumento dos custos nos últimos anos está expulsando aos poucos do mercado externo a fabricante de autopeças Grob, filial de um grupo alemão.

A Grob brasileira tem hoje custos de produção iguais aos da matriz e mais altos do que os das subsidiárias na China e nos Estados Unidos. Por esse motivo, enquanto as outras unidades crescem, a fábrica brasileira deverá fechar 2014 com queda de 15% no faturamento, repetindo o desempenho de 2013.

Peter Macdiarmid/Getty Images

Porto na Inglaterra: contar com uma infraestrutura de logística eficiente é uma das condições imprescindíveis para a inserção das empresas nas cadeias globais de produção — e nisso o Brasil deixa muito a desejar

Segundo Michel Bauer, presidente da Grob no Brasil, a unidade daqui só consegue exportar porque a matriz repassa encomendas. “Somos uma empresa familiar, e o proprietário gosta do Brasil”, diz Bauer.

Geração de riqueza

A verdade é que a escalada das empresas brasileiras nas cadeias globais não se dará por boa vontade. Reduzir o custo Brasil é fundamental. Mas, ainda que ele fosse baixado por decreto, muitos setores dificilmente iriam competir em igualdade com empresas de países onde o custo da mão de obra é uma fração do nosso.

Não é à toa que a Apple mantém nos Estados Unidos a criação de seus produtos e deixa para aChina a tarefa de montagem dos aparelhos, nas fábricas da Foxconn. Esses setores, em que o custo faz a diferença, costumam ser os que menos riqueza geram — e são, por isso, delegados aos países mais pobres.

“Os primeiros estágios das cadeias globais se baseiam nas atividades de baixo valor”, diz Andrew Guinn, pesquisador do Centro de Globalização, Governança e Competitividade da Universidade Duke, dos Estados Unidos. “Não é isso que o Brasil deve almejar.”

O país precisa buscar a inserção em setores que geram mais riquezas. Na Serra de Petrópolis, no Rio de Janeiro, há um exemplo a ser seguido. É a GE Celma, um centro de manutenção de turbinas de avião com 1 100 funcionários. Por ano, a unidade recebe cerca de 250 motores de clientes como KLM, FedEx, Gol, entre outras companhias aéreas.

Uma das maiores exportadoras de serviços do Brasil, a GE Celma faz mais de 90% de seu trabalho para clientes do exterior. No ano passado, faturou quase 1 bilhão de dólares. O tempo médio de entrega dos motores é de 50 a 60 dias, enquanto a média mundial da GE é de 80 dias. “Conseguimos até pegar clientes da unidade americana”, diz Reinaldo Garcia, presidente da GE na América Latina.

A empresa se beneficia de programas da Receita Federal, como o Linha Azul e o Recof, que isentam as empresas inscritas de pagar imposto sobre insumos importados quando se destinam a produtos ou serviços que serão exportados e garantem tratamento prioritário nas alfândegas de portos ou aeroportos.

Com a GE, menos de 50 empresas estão inscritas nesses programas. Só elas conseguem cumprir exigências como um limite mínimo de exportações e patrimônio líquido de 25 milhões de reais. “O Brasil deveria ampliar o acesso das empresas a esses canais que facilitam o comércio”, afirma Sturgeon, do MIT.

Só com estímulo

Em vez de reduzir suas ineficiências para permitir a entrada das empresas no jogo do comércio global, o Brasil tem camuflado os problemas com incentivos. Uma das maneiras de fazer isso é por meio dos Processos Produtivos Básicos, políticas de incentivos fiscais a empresas de diversos setores que se comprometem a produzir localmente e a contratar fornecedores domésticos.

De 2003 a 2012, foram assinadas 1 294 portarias de Processos Produtivos Básicos, segundo um levantamento feito pelo economista José Tavares, do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento, do Rio de Janeiro. Centenas de indústrias são beneficiadas — de fabricantes de raquetes de pingue-pongue a computadores.

“Se não houvesse incentivos fiscais, provavelmente as empresas importariam tudo da China, e nossas fábricas seriam fechadas”, diz Ricardo Pagani, vice-presidente da chinesa Lenovo, que monta computadores em Itu, no interior paulista, valendo-se do sistema que dá benefícios em troca de conteúdo nacional.

No Brasil, a Lenovo tem três fábricas, com um total de 4 000 funcionários. “Perderíamos esses empregos se tudo fosse importado”, afirma Pagani. Esse tipo de política protecionista acaba criando um desestímulo à abertura comercial do país.

“Afinal, quem toparia sair da zona de conforto dos incentivos e das barreiras aos importados para aceitar a competição global?”, diz Otaviano Canuto, conselheiro sênior para economias emergentes do Banco Mundial.

Uma questão é incontornável: a maior inserção do país nas cadeias globais de valor vai provocar perdedores — como já ocorreu no Brasil com a abertura no início dos anos 90. Basta pensar nos setores que sobrevivem graças aos benefícios.

“O protecionismo beneficia uns à custa de outros, porque resulta em preços mais altos”, diz o economista Edmar Bacha, diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, do Rio de Janeiro. “E o isolamento é a receita para uma economia pouco produtiva.”

É simples entender essa causalidade: a concorrência é o maior estímulo para a busca de eficiência. E, na via oposta, o protecionismo permite a sobrevivência de negócios menos eficientes, com produtos piores e mais caros.

“Se conseguirmos aumentar a produtividade em carreira solo, ótimo”, afirma o pesquisador Renato Baumann, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “Mas a experiência mostra que o caminho não é esse.” Isso é algo que sabemos desde o fim do século 19. Entramos no século 21 cometendo o mesmo erro. Mas não podemos sair dele agindo da mesma forma.
Revista Exame

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O Iraque desmancha-se


Em Al Kasar, desde o avanço do EIIL, cerca de 1 milhão de civis estão refugiados

A destruição de um Estado 
e as ameaças às fronteiras na região

Edilson Adão Cândido da Silva*
O Oriente Médio atravessou o século XX como o mais importante e instável conjunto geopolítico do globo e adentrou o XXI na mesma condição. Ora de forma mais intensa, ora mais branda, a verdade é que a região não sai do noticiário. O assunto da vez é a crise síria e as reais possibilidades de desconstrução das fronteiras iraquianas.

As capitais Damasco e Bagdá foram sedes de dois dos mais importantes califados, após a morte do profeta Maomé desde o século VII. Do esplendor do passado ao caos do presente, Síria e Iraque são, inegavelmente, países centrais no contexto geopolítico da região. E vêm de lá, no momento, as maiores preocupações.

No caso do Iraque, a crise contemporânea está indissociavelmente ligada às trapalhadas do ex-presidente norte-americano George W. Bush (2001-2009) e seus falcões naquele país desde 2003. Até então, o Iraque vivia sob um governo tirano. Mas daí, destruir um Estado e substituí-lo pelo caos, vai uma longa distância.
Saddam Hussein era um déspota, mas não um terrorista. Ao contrário, enquanto viveu combateu o terrorismo e impediu sua entrada no Iraque. Era inimigo declarado de Bin Laden.

Em artigo publicado na edição de maio de 2013 em Carta na Escola, afirmo que o Iraque tornara-se o pior lugar do mundo para se viver. A suposta “Guerra ao Terror”, implícita na cartilha geopolítica da doutrina Bush, fez do antigo reino da Babilônia um abrigo de terroristas, das mais variadas partes do mundo.

Vejamos o que afirmou George W. Bush, em setembro de 2002, em um documento enviado ao Congresso americano: “Atualmente, os Estados Unidos gozam de uma posição de incomparável força militar e grande influência política e econômica. Coerentes com nossas tradições e nossos princípios, não usamos de força para pressionar em favor de vantagens unilaterais”.

Contudo, o que se viu foi exatamente o contrário. Os EUA usaram a força e atacaram o Iraque com o único propósito de tirar vantagens unilaterais. O argumento das tais armas de destruição em massa foi um engodo. Era improvável que o país as possuísse, pois estava à míngua diante dos embargos desde 1991: não havia a menor possibilidade técnica para se produzirem tais armas. Como se sabe, os estadunidenses atacaram o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, já que a França antecipara seu veto a uma resolução para esse fim. Muitos analistas entendem ser esse episódio o maior golpe sofrido pela entidade desde sua criação, em 1945.

Contudo, os EUA não conseguiram levar adiante o projeto de transformar o Iraque em um país aliado das empresas petrolíferas do Ocidente. Em 2003, a Halliburton, uma das maiores prestadoras de serviços no setor do mundo e que fora presidida pelo vice de Bush, Dick Cheney, entre 1995 e 2000, ganhou generosos contratos para a reconstrução do Iraque. Mas não teve êxito.

O cenário atual
O Iraque tem um frágil governo constituído, mas que não é reconhecido por todos os grupos que habitam o país. O primeiro-ministro Nouri al-Maliki é aceito pela maioria xiita (perto de 55% da população), mas tem a objeção dos árabes e curdos-sunitas. Nos últimos tempos, Al-Maliki aproximou-se demais de Teerã para desconforto da Casa Branca, que agora cogita distanciar-se de seu ex-pupilo. A instabilidade no Iraque e, posteriormente, na Síria produziu o surgimento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) que, unilateralmente, anunciou a criação do Estado Islâmico (EI), um Estado fundamentalista que se estenderia de Aleppo, na Síria, a Diyala, no Iraque. O líder desse pretenso novo califado do século XXI é Abu Bakr Baghdadi. Os métodos do grupo lembram em muito a ordem dos assassínios, seita ismaelita do século XI, cuja violência das ações não hesitava em executar friamente os inimigos após inalarem o haxixe, originando, inclusive, a palavra assassino. Ou, numa comparação mais recente, o Grupo Islâmico Armado (GIA) que produziu horrores no interior da Argélia nos anos 1990. O EIIL vem aterrorizando as comunidades do deserto iraquiano e sírio, próximos ao Vale do Eufrates, mas também em Mosul, ao norte, segunda maior cidade do Iraque. Aos olhos do Ocidente, trata-se de ameaça maior que Teerã. Para desconforto dos EUA, quem pode deter o EIIL são exatamente dois regimes hostis aos seus interesses: o de Bashar al-Assad e de Ali Khamenei. A temida conexão Damasco-Teerã, talvez seja agora uma necessidade.

Os fatos recentes na Síria e no Iraque têm origens diversas. Na Síria, a tensão que ora se verifica é fruto das manifestações que varreram o mundo árabe desde dezembro de 2010, enquanto o tenso caldeirão que se tornou o Iraque resulta da intervenção anglo-americana em 2003. Isso, claro, considerando um recorte histórico recente.

A instabilidade e a forte tensão que atualmente vigoram têm uma matriz sectária que, por meio do totalitarismo da era Saddam, estava sob controle. O Iraque era uma espécie de “ditadura plurinacional”, em que os sunitas detinham o poder e a maioria xiita e os curdos eram reprimidos. Os árabes sunitas nunca foram maioria no Iraque, mas sempre estiveram no poder. Hoje, o ódio milenar entre xiitas e sunitas explode em meio à insanidade passional que caracteriza as religiões, quando a não aceitação da outra verdade se sobrepõe. As notícias dão conta de que, desde o avanço do EIIL, mais de mil civis foram executados e algo próximo de 1 milhão tornaram-se refugiados. Mas a violência não começou aí: o extermínio mútuo vem desde a ocupação, quando o Iraque tornou-se um Estado acéfalo; foi nesse contexto, em 2003, que o diplomata brasileiro e representante da ONU, Sérgio Vieira de Melo, morreu em um dos inúmeros atentados que marcaram o país. O Iraque, a partir da ocupação, mergulhou no caos sectário e não se veem perspectivas de melhora a curto prazo.

No entanto, é possível que a ofensiva do EIIL não prossiga, pois, excetuando-se seus seguidores, a ojeriza ao grupo é consensual no mundo árabe e islâmico, e há uma convergência dos mais distintos interesses na região para pôr fim ao avanço do grupo. Contra essa incógnita extremista, Iraque, Irã, Síria, Estados Unidos, Arábia Saudita e, possivelmente, até a Rússia possam dar as mãos, mesmo que circunstancialmente. O EIIL, ao que se parece mais aterrorizador que a própria Al-Qaeda, com quem inclusive rompeu, conseguiria unir numa mesma frente históricos desafetos.

Independentemente do EIIL, a divisão étnico-religiosa do Iraque poderá, sim, num futuro médio, resultar em três Estados, embora os esforços no sentido contrário estejam sendo engendrados por Estados Unidos, Irã e Turquia. Essa possível fragmentação redundaria numa desvantagem inicial aos sunitas: o Iraque possui a terceira maior reserva mundial de petróleo, mas o hidrocarboneto concentra-se no sul xiita e no norte curdo, enquanto a região ocupada pelos sunitas é desprovida de grandes reservas. Esse é um dos fatores da reação extremista sunita.

País desconstruído
O Iraque atual é produto do rearranjamento territorial que a Grã-Bretanha impôs ao Oriente Médio, após a dissolução do Império Turco-Otomano no desfecho da 1ª Guerra Mundial há cem anos. Suas fronteiras preservavam as do antigo Império Babilônico, mas distinguiram-se do que fora no Império Otomano. O Vale do Eufrates não lhe pertencia; Mossul, ao norte, era área de litígio com os turcos e reivindicado pelos mesmos; as constantes desavenças com o Irã sobre o Chat el-Arab, ponto de encontro estuarino entre o Tigre e Eufrates junto à desembocadura do Golfo, são antigas.

A porção sudoeste sempre foi habitada por árabes nômades não muito afeitos a respeitar as fronteiras políticas, e sim suas próprias noções de “fronteira”. Daí a criação de uma zona neutra entre Iraque, Arábia Saudita e Kuwait, onde os beduínos e suas caravanas têm livre trânsito. Até 1920, o que é hoje o Iraque não existia cartograficamente: as três principais macrounidades do Iraque contemporâneo, Mossul, ao norte; Bagdá, ao centro; Basra, ao sul, uniram-se a partir do estabelecimento do mandato britânico. As duas monarquias consentidas que surgiram na ordem do pós-1ª Guerra Mundial, Assabah, no Kuwait, e Fayçal, Iraque, tencionavam constituir uma federação, projeto abortado por Londres. Anos mais tarde, em 1990, Saddam Hussein invadiria o pequeno país, alegando que, histórica e geograficamente, não se justificava a existência do Kuwait: ele seria parte do Iraque.
Revista Carta Escola

Geografia e a Arte

Geografia e a Arte
Currais Novos

Na Hora da Geografia

Loading...